Título: MÉXICO: AUMENTA TEMOR DE DISTÚRBIOS
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 11/07/2006, O Mundo, p. 26
López Obrador insiste em recontagem de votos e protestos são marcados
CIDADE DO MÉXICO. A sorte está lançada. E, ao que tudo indica, Andrés Manuel López Obrador, do Partido Revolucionário Democrático (PRD), iniciou um caminho sem volta e que poderia causar distúrbios no país.
Depois de entregar seu apelo ao tribunal eleitoral, no fim da noite de domingo, o candidato que ficou em segundo lugar na eleição presidencial do dia 2 ¿ apenas 0,58 ponto percentual abaixo de Felipe Calderón, do Partido Ação Nacional (PAN) ¿ indicou que não aceitará outra decisão que não seja a ordem de recontagem de todos os votos.
¿ Eu tenho convicção de que ganhei esta eleição. E vou continuar mantendo-a ¿ afirmou López Obrador.
A situação pode se agravar para algo mais do que um ressentimento pessoal. Marchas serão iniciadas nesta quarta-feira em cada um dos 31 estados do país, em direção à Cidade do México onde, no próximo domingo, haverá uma nova concentração no Zócalo, a enorme praça no centro histórico onde domingo passado López Obrador reuniu 280 mil pessoas.
Candidato apresenta vídeos como prova de fraude
A perspectiva é que tais mobilizações se mantenham depois da decisão do Tribunal Eleitoral do Poder Judiciário da Federação (TEPF) ¿ que tem prazo até fins de agosto para chegar à uma conclusão, que seria oficialmente anunciada na primeira semana de setembro.
Em contatos com os Comitês Civis em Defesa do Voto no País, criados pelo PRD no domingo, assessores de López Obrador vêm sugerindo que em caso de derrota na Justiça Eleitoral os seus simpatizantes devem manter a campanha enquanto durar um novo apelo, desta vez na Suprema Corte de Justiça.
Ao mesmo tempo eles dão a entender que a reconfirmação de uma eventual negativa poderia desencadear um ¿movimento popular de defesa da dignidade¿ ¿ cujas consequências, à essa altura, são imprevisíveis.
A Igreja Católica convocou o país à reconciliação social. Monsenhor Carlos Briseño Arch, bispo-auxiliar da Cidade do México, disse que a sociedade mexicana não sabe como reagir a uma disputa tão hostil.
Com 850 páginas de documentos, López Obrador alegou ao tribunal federal eleitoral que a fraude teria ocorrido em 52 mil urnas, e pediu a recontagem de todas no país. Além disso, acusou o IFE de conspiração. Um documento anexado ao processo afirma que uma urna, na qual Calderón levou ampla vantagem, foi computada 85 vezes.
Ele adicionou ainda dois vídeos. Num, um homem coloca vários votos numa urna para a eleição de deputados ¿ segundo o candidato, seriam cédulas para presidente. No outro, um funcionário parece se recusar a recontar uma urna que teria discrepâncias a favor de Calderón.
O PAN reagiu discretamente:
¿ A vitória de Calderón é irreversível. Mas, de qualquer forma, estamos prontos para a batalha judicial que vem por aí ¿ disse Javier Arriaga Sánchez, diretor jurídico do partido.