Título: O Líbano está de mãos atadas¿
Autor:
Fonte: O Globo, 13/07/2006, O Mundo, p. 31

TEL AVIV. Para o pesquisador Eyal Zisser, chefe do Departamento de Oriente Médio e África da Universidade de Tel Aviv, o ataque do Hezbollah surpreendeu pela ousadia. Para ele, o principal objetivo é reconquistar a influência perdida após a retirada das forças sírias do Líbano, no ano passado.

O confronto entre israelenses e palestinos foi retomado em Gaza. Qual o objetivo do Hezbollah com a escalada do conflito?

EYAL ZISSER: O Hezbollah se esconde atrás da causa palestina e alega que o seqüestro de soldados israelenses é uma forma de pressionar Israel e frear as incursões em Gaza e na Cisjordânia. O objetivo verdadeiro, porém, é retornar à arena política. Com a retirada das tropas sírias no ano passado após 29 anos e o assassinato do ex-premier Rafik Hariri, a sociedade libanesa atravessa uma fase de mudanças e o Hezbollah perdeu protagonismo. Mais do que uma agressão contra Israel, a ação é um aviso ao governo libanês de que o grupo está vivo e mantém seu poder intacto.

O governo libanês convocou uma reunião de emergência logo após o ataque e isentou o país de qualquer responsabilidade. Existe a ameaça de um conflito interno entre o governo do Líbano e o Hezbollah?

ZISSER: Não. O governo libanês está de mãos atadas e prefere tolerar o Hezbollah. Além de fraco politicamente, o governo de Beirute é financeiramente dependente da Síria, maior financiadora do Hezbollah, junto com o Irã. Até agora o Hezbollah operava no limite da tolerância libanesa e ontem o limite foi rompido. Por um lado, a máquina de propaganda diz ao povo que eles não sofrerão conseqüências das atividades do grupo e que seus alvos são legítimos. Por outro, a manobra de ontem provoca uma dura resposta militar israelense contra o país. Caso o Líbano seja atacado e civis morram, a organização do xeque Hassan Nasrallah pode pagar um preço alto.

Qual é o nível de popularidade do Hezbollah entre os libaneses?

ZISSER: O povo libanês que vive nas grandes cidades é contra as atividades terroristas. Beirute é uma cidade cosmopolita e o Líbano de hoje não é mais o velho Líbano da época da guerra civil, na década de 80. As feridas daquela época não cicatrizaram totalmente, mas falta força política para eliminar o Hezbollah. Seu apoio vem sobretudo das áreas mais afastadas. Como organização islâmica fundamentalista o Hezbollah encontra grande simpatia entre a população xiita, que é maioria no país.