Título: Rastro de sangue entre civis¿
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Fonte: O Globo, 13/07/2006, O Mundo, p. 31
TEL AVIV. Ex-chefe da inteligência israelense no sul do Líbano, o coronel Dani Reshef diz que a população civil é um dos maiores trunfos do Hezbollah. Ele deixou o Exército em 1999 e acredita que uma volta ao território libanês, por terra, é altamente arriscada para a população civil libanesa.
A convocação de seis mil reservistas do Exército é sinal de que uma operação prolongada pode começar no sul do Líbano?
DANI RESHEF: A resposta israelense depende agora mais de forças políticas que de militares. A ameaça de uma ação contra Israel sempre existiu, pois após a retirada israelense há seis anos e após a saída das tropas sírias, quem tomou o poder na região foi o Hezbollah e não o Exército libanês. Há postos de observação e bases militares do Hezbollah a poucos metros da fronteira sem que ninguém interferisse. Israel e Líbano respeitam suas fronteiras reconhecidas de acordo com a lei internacional desde 2000. É uma situação inusitada, pois os israelenses têm pela frente um dilema sério. Por um lado, a agressão veio de um país independente, mas por outro, não veio do governo deste país.
Quais as dificuldades estratégicas de uma incursão terrestre no sul do Líbano?
RESHEF: A região montanhosa complica as operações das tropas, mas o problema maior é que os guerrilheiros do Hezbollah têm boas armas e muitos bunkers subterrâneos em toda a área. É uma operação arriscada que envolve muita artilharia, pois enquanto se avança é preciso atirar por todos os lados para ter certeza de que o caminho está limpo. Além do risco para os soldados, é impossível lançar uma ofensiva como essa sem promover uma matança. Há cerca de 200 mil libaneses, a maioria refugiados palestinos, vivendo no sul, em pequenas aldeias, controladas pelo Hezbollah. Para se alcançar um militante, seria necessário pôr em risco a vida de pelo menos 30 civis inocentes, deixando para trás um enorme rastro de sangue.
O Hezbollah não tem um mecanismo para defender ou apoiar a população civil, como o Hamas, com seus trabalhos sociais em Gaza?
RESHEF: O Hezbollah defende os libaneses somente nos discursos de Nasrallah. Desde a guerra de 1982, os fundamentalistas descobriram que os civis são o melhor escudo. Eles sabem que uma matança de civis põe Israel numa situação delicada perante a comunidade internacional e costuma se posicionar bem no meio da população civil. O Hezbollah sabe administrar guerras psicológicas como ninguém. Além de ameaçar Israel com ataques e seqüestros, promete aos libaneses segurança, ganhando sua confiança e colocando suas vidas em risco. (Renata Malkes)