Título: EMPRESAS DEIXAM 2 MILHÕES SEM ÔNIBUS
Autor: Adauri Antunes Barbosa
Fonte: O Globo, 14/07/2006, O País, p. 5
Cerca de 85% da frota pára e paulistanos têm de ir a pé para o trabalho
SÃO PAULO. Mais de dois milhões de paulistanos ficaram sem transporte ontem depois que os donos de empresas de ônibus, alegando prejuízo de R$12 milhões com os carros destruídos e temendo novos ataques, retiraram os coletivos de circulação. O governo estadual e a prefeitura levaram 36 horas, desde o início dos atentados, para elaborar um plano de emergência. Ontem à tarde, anunciaram que policiais à paisana seriam infiltrados em ônibus e fariam policiamento ostensivo nos principais pontos de circulação e nas garagens das empresas.
Apenas 15% da frota de 7.600 veículos circulou. Das 16 empresas paulistanas, 12 recolheram seus veículos e quatro circularam parcialmente. A prefeitura determinou que até o início da manhã de hoje as empresas de ônibus normalizassem o serviço, sob pena de sofrer sanções do governo.
Pela manhã houve tumulto nos terminais, com os passageiros se aglomerando em vans e nos poucos ônibus que saíram às ruas. Pelo menos cinco milhões de pessoas usam o transporte coletivo em São Paulo diariamente. Muitos paulistanos foram trabalhar a pé.
¿ Queremos trabalhar! Queremos trabalhar! ¿ gritavam centenas de passageiros que não encontravam ônibus na região do Largo 13 de Maio, no bairro de Santo Amaro, Zona Sul de São Paulo. Insatisfeitos com a falta de ônibus na região da Zona Sul, eles realizaram uma manifestação pacífica por cerca de quatro horas e meia, no Largo 13 de Maio, na Alameda Santo Amaro, na Ponte do Socorro, na Avenida Vítor Manzini e na Rua Desembargador Bandeira de Mello.
De acordo com a Polícia Militar não houve confrontos e apenas uma pessoa foi detida por desacato durante a manifestação, que começou por volta das 6h e seguiu por toda a manhã. Comerciantes da região hesitaram em abrir suas lojas por conta do tumulto.
Trabalhadores protestaram cercando veículos
Divididos em grupos de aproximadamente 30 pessoas, os manifestantes cercavam as lotações, sentavam-se no chão e bloqueavam a passagem dos veículos por alguns minutos. Bem-humorados, mostrando suas marmitas e gritando palavras de ordem, os manifestantes perguntavam onde estava o governador Cláudio Lembo (PFL) para resolver seus problemas.
Com a falta de ônibus, o trânsito ficou sobrecarregado de carros particulares e a prefeitura suspendeu o rodízio de veículos, liberando para circulação os carros com finais de placa 7 e 8 (a restrição retira das ruas diariamente mais um milhão de veículos).
A polícia investiga a informação de que jovens estejam sendo arregimentados pela facção criminosa responsável pelos ataques em troca de R$1.000 por ônibus destruído. A denúncia teria feita em maio passado, quando começaram os ataques das quadrilhas.
¿ Diferentemente da vez anterior, a destruição de ônibus foi terceirizada. São adolescentes, a grande maioria de 18 a 20 anos, que estão em vários locais tacando fogo, aqui e na Grande São Paulo. No interior é um pouco mais fácil ¿ disse o comandante da PM, o coronel Elizeu Eclair Teixeira Borges. Segundo ele, a presença de policiais nos ônibus será para monitorar.
¿ Não vamos agir pondo passageiros em risco.
Até ontem, balanço era de 65 ônibus destruídos
Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, o número de ônibus destruídos em todo o estado subiu para 65. Até agora, segundo a secretaria, foram presas sete pessoas e detidos dois adolescentes, suspeitos de participação nos ataques. O coronel listou os principais alvos: litoral, Zona Leste da capital, Suzano, Poá e Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo.
¿ É imponderável, não dá para dizer que não teremos mais ataques, mas estamos monitorando. Há cooperação da Polícia Federal e da polícia de São Paulo. Temos grampos legais e, pelo mapeamento, sabemos quais são os locais ¿ afirmou o coronel Eclair.
Para o diretor do SPTrans, órgão da prefeitura que controla o sistema de transportes, Stanislav Feriancic, o fato de as empresas de vans não terem sido atacadas e circularem normalmente pela Grande São Paulo não pode ser associado às denúncias de que algumas cooperativas teriam ligação com o crime organizado. A polícia paulista chegou a prender, nos últimos meses, dirigentes de cooperativas sob acusação de integrarem a principal facção criminosa do estado, explorando o transporte público para arrecadar fundos e traficar armas e drogas.
(*) Do Diário de S.Paulo