Título: DESDE TERÇA-FEIRA, 106 ATAQUES E DEZ MORTOS
Autor: Adauri Antunes Barbosa
Fonte: O Globo, 14/07/2006, O País, p. 5
Bomba artesanal explode numa loja no Shopping Aricanduva, na Zona Leste; não houve feridos
SÃO PAULO. Depois de mais um dia de violência, a Polícia Militar de São Paulo contabilizou ontem à noite 106 ações contra 121 alvos em todo o estado desde terça-feira. A capital paulista viveu um dia de caos depois que, como medo de novos atentados, as empresas de ônibus retiraram 85% dos coletivos de circulação e deixaram dois milhões de pessoas sem transporte durante todo o dia. O número de mortos chegou a dez, embora a PM só tenha registrado oficialmente sete mortes. Um ex-presidiário foi morto confronto com a PM ontem de madrugada, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo.
Ontem à noite, na mais recente ação dos criminosos, uma bomba caseira explodiu numa loja no Shopping Aricanduva, na Zona Leste, sem deixar feridos. Pela primeira vez, a PM registrou atentados a uma estação do metrô no Capão Redondo e a uma unidade da Febem no Itaim Paulista.
Embora a maior parte dos ataques tenha sido contra ônibus, chegando a 68 dos 121 alvos desde a noite de terça-feira, segundo o coronel Elizeu Eclair, comandante da PM de São Paulo, houve nos últimos dois dias ações dos criminosos também contra 15 caixas eletrônicos e contra forças de segurança, prédios públicos e particulares, registrados em mais de 20 cidades.
¿ Temos nos dois últimos dias 106 ações com 121 alvos. Desses 121, 55%, ou 68, foram contra ônibus. O alvo é o ônibus. O foco principal é claro que é o transporte coletivo ¿ concluiu o coronel Eclair.
Apesar de o metrô ter funcionado normalmente o dia todo, a estação Capão Redondo, na Zona Sul, foi alvo de tiros durante a madrugada. Ninguém se feriu.
Policiais armados à paisana estarão nos ônibus
Para enfrentar a guerrilha urbana do crime organizado, a PM anunciou que vai colocar policiais armados à paisana nos ônibus das 20 principais linhas de São Paulo.
¿ Prender não é o principal quando a vida dos usuários estiver em perigo ¿ afirmou o coronel Elizeu Eclair.
A polícia concluiu que os incendiários dos ônibus seriam adolescentes entre 18 e 20 anos.
¿ Os crimes foram terceirizados. Mas a origem é o crime organizado ¿ disse o coronel.
Edson Marcos de Andrade, de 33 anos, acusado de fazer parte da organização criminosa que domina os presídios paulistas, morreu na madrugada de ontem ao trocar tiros com policiais civis no limite entre a Zona Sul de São Paulo e a cidade de Taboão da Serra. Segundo a polícia, Andrade estaria com uma granada e duas armas. Na casa dele, policiais apreenderam armas e cartas com instruções para a contratação de advogados, pagamento de caixinhas e arrecadação de cestas básicas para parentes de criminosos. Ele tinha saído em julho passado da penitenciária de Itirapina.
No balanço oficial divulgado ontem, a Secretaria de Segurança de São Paulo informou que são seis os mortos desde terça-feira: três vigilantes de segurança privada, um guarda municipal, um policial militar e um cidadão. Não estão incluídos três outros mortos que, segundo a polícia, não teriam sido atacados pelos criminosos. Já segundo o coronel Elizeu Eclair, estariam confirmados oito mortos.
Na noite de quarta-feira, quatro homens suspeitos de integrar a facção criminosa foram presos pela PM na Vila Formosa, Zona Leste, entre eles Leandro Lopes Badolato, de 21 anos, que foi reconhecido por policiais como autor do assassinato do agente carcereiro Elias Pereira Dantas, em 13 de maio, em Santo André, quando ocorreram os primeiros ataques.