Título: Tensão derruba mercados
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Fonte: O Globo, 14/07/2006, Economia, p. 27
Conflitos no Oriente Médio levam petróleo a novo recorde e bolsas caem no mundo
NOVA YORK, LONDRES e RIO
Conflitos geopolíticos voltaram ontem ao centro das atenções dos mercados internacionais, com o barril do petróleo chegando a atingir US$78 e fortes quedas nas bolsas de valores de todo o mundo. O movimento foi puxado pela intensificação dos conflitos entre Israel e Líbano, além de preocupações com o fornecimento da Nigéria e com a ambição nuclear de Irã e Coréia do Norte.
Em Nova York, o barril do tipo leve americano teve alta de 2,33%, fechando a US$76,70, novo recorde histórico. Durante o pregão, a commodity chegou a ser cotada a US$78,40. Este ano, a alta acumulada é de 25%.
Já o barril do tipo Brent, negociado em Londres, encerrou em alta de 3,09%, a US$76,69, também novo recorde, após atingir US$77,49.
¿ As tensões geopolíticas aumentaram. Estamos atingindo uma nova fase no Irã e em Israel ¿ disse Mike Wittner, analista do banco de investimentos Calyon.
O petróleo e os ataques no Líbano derrubaram as bolsas. Em Wall Street, o Dow Jones caiu 1,52% e o Nasdaq, 1,73%. Houve quedas ainda em Japão (0,99%), Alemanha (1,96%) e Reino Unido (1,63%). Os investidores temem que o avanço nas cotações do barril causem pressões na inflação, levando os bancos centrais dos países a subir juros. Com isso, haveria freio na economia mundial.
O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, afirmou ontem que um ataque israelense à Síria ¿ suspeita de estar por trás dos atentados do Hezbollah ¿ seria visto como um ataque ao mundo islâmico, que teria uma resposta violenta. Israel ontem bloqueou portos libaneses e atacou o aeroporto de Beirute. O Exército israelense informou que um foguete disparado pelo Hezbollah atingiu a cidade de Haifa, mas o grupo negou.
Na Nigéria, duas explosões em um oleoduto operado pela italiana Agip causaram derramamento de petróleo. A empresa negou rumores de sabotagem. A Royal Dutch Shell já teve de reduzir sua produção em 473 mil barris por dia no país devido a ataques de grupos rebeldes.
As interrupções no fornecimento e a crescente tensão no Oriente Médio podem provocar novas altas no petróleo, alertam investidores. A região responde por cerca de um quarto da produção mundial.
¿ A próxima parada é US$80 ¿ disse Mark Matthias, diretor-executivo da consultora Dawnay Day Quantum. ¿ É para onde o mercado está olhando agora.
O ministro de Petróleo do Qatar, Abdullah al-Attiyah, afirmou ontem que não há escassez do produto nos mercados mundiais. O Qatar faz parte da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que não tem conseguido segurar a alta dos preços, apesar de estar usando quase toda a sua capacidade de produção.
¿ Especuladores estão usando a situação geopolítica em seu benefício, e estamos vendo como os preços do petróleo estão reagindo ¿ disse al-Attiyah.
Analistas: reajuste só após eleições
A direção da Petrobras não quis comentar as recentes altas dos preços internacionais do petróleo. Segundo uma fonte da companhia, apesar de os preços da gasolina e do óleo diesel não subirem há dez meses, ainda não se cogita um reajuste.
Especialistas do setor, contudo, garantem que, apesar de a Petrobras não repassar a volatilidade do mercado externo para seus preços domésticos, o patamar das cotações do petróleo já mudou. Para eles, a estatal brasileira deveria aumentar seus preços. Adriano Pires Rodrigues, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), estima que a gasolina está com uma defasagem da ordem de 15% em relação às cotações internacionais, enquanto o diesel está 14% mais barato. Ele disse que a defasagem foi calculada anteontem, quando os preços do petróleo estavam em torno de US$72 por barril. Ou seja, ontem a defasagem aumentou.
¿ A Petrobras poderia aproveitar este momento de deflação e reajustar seus preços. Quando aumentou seus preços em setembro, o petróleo estava a US$60 o barril. Mas acho que os derivados não aumentarão antes das eleições de outubro ¿ disse Adriano Pires.
O professor Hélder Queiroz, do Grupo da Economia de Energia da UFRJ, também acredita que a Petrobras não fará reajuste antes das eleições. Ele ressalta que, hoje, a possibilidade de elevar a produção de petróleo no mundo é muito pequena e, por isso, conflitos como o do Oriente Médio puxam as cotações.
¿ Se a crise no Oriente Médio se agravar, o barril pode chegar a US$80. Mesmo que isso não ocorra, acho difícil baixar dos US$70. Portanto, era hora de a Petrobras aumentar seus preços, mas não acredito que fará isso ¿ disse Queiroz.
COLABOROU Ramona Ordoñez