Título: UM VERÃO TÃO QUENTE QUANTO O DE 1987
Autor:
Fonte: O Globo, 14/07/2006, O Mundo, p. 36
De volta ao passado, em Beirute
BEIRUTE. Costumo escolher para passar as férias as cidades que mais amo e também aquelas que temo não voltar a ver. Minha repentina decisão de passar uns dias em Beirute contou com o apoio do ¿El Pais¿ e um estimulante conselho: ¿Faça uma reportagem para agosto, contando como é o verão por lá.¿ ¿Foi assim que cheguei a Beirute pela primeira vez, em 1987, para escrever sobre o paradoxo do verão libanês em guerra¿, respondi.
Na época, o verão foi bem quente ¿ campos palestinos sitiados, carros-bomba, seqüestro de estrangeiros ¿ e este vai ser novamente.
De modo que, 20 anos depois, estava eu tomando sol na piscina do hotel St. George, bem ao lado do lugar onde explodiram o ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, um trecho de rua hoje convenientemente asfaltado e piedosamente batizado de Rafik Hariri Place. Poucas horas depois, o Hezbollah armava o seqüestro dos dois soldados israelenses e o futuro já será história. Como o passado.
A temporada turística prometia ser feliz e já rendia frutos. O luxuoso hotel Movenpick estava repleto de sauditas pagando por um bangalô o mesmo preço de um apartamento em Madri e os comerciantes de Hamra esfregavam as mãos: ¿Dizem que teremos um milhão e meio de visitantes.¿
O encanto se rompeu. Enquanto escrevo, no meu hotel, os hóspedes esperam de malas prontas pelos ônibus que os levarão a Damasco ou Amã, de onde seguirão para suas casas.
Fui dar uma volta pelos arredores ¿ convém não se aproximar dos bairros xiitas ao sul de Beirute, mais facilmente bombardeáveis, e com seus excitados moradores celebrando as façanhas do Hezbollah dando tiros para o alto ¿ e vi a gente de sempre, mais triste e desesperançada do que nunca.
Em 1987, Beirute vivia em meio ao conflito que opôs cristãos e muçulmanos por 15 anos (de 1975 a 1990), e tudo o que se via eram ruínas da cidade que um dia fora chamada de a ¿Paris do Oriente Médio¿. Mas a cidade foi completamente reconstruída por meio de um ambicioso projeto de mais de US$12 bilhões. Tamanho investimento trouxe de volta turistas, cafés e lojas de grife.