Título: LIVRE DA RECESSÃO, JAPÃO SOBE JUROS
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Fonte: O Globo, 15/07/2006, Economia, p. 29
Após seis anos de índice zero, banco central do país eleva taxa básica para 0,25%
TÓQUIO
OJapão encerrou ontem uma era de juros zero, depois que o Banco do Japão, o banco central (BC) do país, elevou sua taxa pela primeira vez em seis anos, acabando também com uma política não ortodoxa voltada para fazer o país crescer, após uma década de economia estagnada. O BC japonês elevou a taxa básica de 0,069% ¿ efetivamente zero ¿ para 0,25%.
Segundo economistas, a medida será um teste para o frágil sistema bancário do país. Para as famílias japonesas, representa o encarecimento de empréstimos, mas, por outro lado, uma remuneração da poupança melhor do que o 0,001%, com que suas contas vinham sendo corrigidas. Para o setor corporativo, no entanto, a notícia trouxe preocupações em relação ao custo do crédito e incertezas quanto aos lucros no futuro.
O Conselho de Política Monetária da instituição votou por unanimidade pelo aumento, após considerar um sucesso a política de juro zero por cento do BC iniciada em 2000.
¿ É o primeiro passo rumo à normalidade ¿ disse Masaaki Kanno, economista do JP Morgan Securities. ¿ É um claro sinal de que agora a economia japonesa está indo bem. O timing do aumento (dos juros) foi bastante bom.
Quase imediatamente após o anúncio do Banco do Japão, o Tokyo-Mitsubishi UFJ Bank, o maior banco do mundo em ativos, anunciou a elevação de suas taxas de juros de poupança de 0,001% para 0,1%, a partir da próxima terça-feira.
A decisão do BC japonês foi interpretada ainda como um sinal de força da autoridade monetária, num período em que o presidente da instituição, Toshihiko Fukui, vem sendo pressionado para deixar o cargo, além de pressões políticas para manter o juro em zero por cento.
A medida também deixa o Japão mais perto das demais grandes economias do mundo. O país agora fica mais atraente para os investidores. Em junho, o Banco Central Europeu (BCE) elevou sua taxa básica para 2,5%, ao passo que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) já subiu os juros básicos da economia 17 vezes até o atual nível de 5,25%.
Desemprego é o menor em 8 anos
Nas semanas que antecederam a decisão de ontem, vários líderes de partidos recomendaram ao BC japonês que mantivesse a taxa em zero por cento. Uma das preocupações desses políticos era a de que a instituição repetiria o erro de agosto de 2000, quando elevou os juros prematuramente, afetando a recuperação econômica. O presidente da instituição, porém, disse que o banco está sendo cauteloso e que a economia caminha muito bem:
¿ Não estamos começando uma política sucessiva de aumentos de juros ¿ disse Fukui. ¿ Vamos estudar cuidadosamente o estado da economia e os preços para gradualmente ajustar a taxa de juros.
De fato, os lucros corporativos estão em alta; o desemprego anda nos níveis mais baixos em oito anos; e o consumo vem crescendo. A economia japonesa cresceu por cinco trimestres seguidos e a previsão é de que o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto das riquezas produzidas no país) japonês feche o ano com alta de 3%. O mais importante, porém, é que a deflação ¿ o cenário de queda de preços que engoliu o crescimento japonês durante anos ¿ foi amplamente vencida. Os preços ao consumidor retomaram o fôlego.
Mesmo assim, o aumento do custo dos empréstimos ¿ aliado à alta dos preços do petróleo e à violência no Oriente Médio ¿ deixou os investidores preocupados. O Nikkei, principal índice da Bolsa de Tóquio, recuou 1,67%, para 14.845,24 pontos.
O primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, em visita à Jordânia, mostrou cautela em relação à decisão do BC japonês, afirmando que o país ainda não se livrou da deflação, embora esteja perto disso. O ministro de Finanças, Sadakazu Tanigaki, disse que o banco deve examinar cuidadosamente o impacto da alta de juros, antes do próximo passo.