Título: CINCO MIL ANOS DE PRISÃO SERIA POUCO¿
Autor: Janaina Figueiredo
Fonte: O Globo, 16/07/2006, O Mundo, p. 43

Mulher diz que não tem `privilégio de morrer¿ antes de encontrar Clara Anahí

BUENOS AIRES. A ditadura destruiu a família de Maria Isabel Chorobik de Mariani. Desde então, esta ex-professora, que em 1977 fundou a organização Avós da Praça de Maio, dedicou sua vida a pedir justiça pela morte do filho e da nora e, sobretudo, à busca de sua neta. ¿Na época, a pedido de meu filho, eu havia solicitado a aposentadoria para poder cuidar de Clara Anahí. Em vez de cuidar dela, tive de começar a procurá-la¿, disse Chicha, em entrevista ao GLOBO.

O que a senhora sentiu quando ficou sabendo que começaria o julgamento?

CHICHA MARIANI: Este julgamento é importante porque será feita justiça em relação ao assassinato de meu filho e de minha nora, dois casos que não foram a julgamento pela aprovação das leis do perdão. Continuo fazendo o que faço há 30 anos, entregar todas as informações que tenho à Justiça.

Durante anos, a senhora não soube explicar por que a casa de seu filho havia sido alvo de um ataque tão violento¿

MARIANI: Sim, foi um ataque terrível, de uma crueldade impressionante. Muitas pessoas me perguntaram por quê. A explicação que sempre sustentamos foi a de que os militares queriam criar um clima de medo na cidade, o que de fato aconteceu. Hoje, muitos vizinhos ainda têm medo de declarar o que sabem. Mas no ano passado descobrimos que no último exemplar da revista montonera que eles editavam na casa foi informado que na Esma (Escola de Mecânica da Marinha) funcionava um centro clandestino de torturas e, também, que os presos políticos eram atirados vivos ao Rio da Prata. Coisas que hoje sabemos que eram verdade.

Onde a senhora estava quando ocorreu o ataque?

MARIANI: Eu morava perto, era uma quarta-feira. E todas as quartas eles traziam o bebê que para eu cuidasse de Clara Anahí. Cheguei do trabalho e fiquei esperando que Diana trouxesse o bebê. Mas na mesma hora que ela deveria ter chegado começou o bombardeio. Eu achei que era um ataque a algum de meus alunos, porque muitos estavam sendo perseguidos. Fiquei com medo que alguma coisa acontecesse com Diana na rua, mas passaram as horas e ela nunca chegou.

A partir desse dia, a vida da senhora mudou completamente.

MARIANI: Eu não entendia nada. Sabia que estavam matando alunos da escola onde eu trabalhava. Na epóca, a pedido de meu filho, eu havia solicitado a aposentadoria para poder cuidar de Clara Anahí. Em vez de cuidar dela, tive de começar a procurá-la. Estou fazendo isso há 30 anos, trabalhando intensamente. No começo procurei sozinha, depois conheci outras senhoras que estavam na mesma situação e assim fundamos as Avós da Praça de Maio, em 21 de novembro de 1977.

A senhora parece ser capaz de enfrentar qualquer coisa¿

MARIANI: Sempre penso que não posso ter o privilégio de morrer, tenho de encontrar minha neta. Sei que se ela (a morte) aparecer por aqui vou mandar ir embora, porque preciso encontrar Clara Anahí.

Em agosto sua neta fará 30 anos. Como a senhora imagina a vida de Clara Anahí hoje?

MARIANI: Não quero imaginar nada, para que o encontro não me surpreenda. Quero poder falar com ela, que ela conheça sua verdadeira história.

Qual é sua expectativa em relação ao julgamento?

MARIANI: Cinco mil anos de prisão seria pouco. (J.F.)