Título: DOLOROSA VOLTA AO PASSADO EM BUSCA DE JUSTIÇA
Autor: Janaina Figueiredo
Fonte: O Globo, 16/07/2006, O Mundo, p. 43

Na luta para reencontrar neta roubada pela ditadura argentina, avó protagoniza capítulo emocionante do julgamento de Etchecolatz

BUENOS AIRES. A casa é a mesma, quase 30 anos depois. Os buracos de bala nas paredes continuam lá, como se o ataque tivesse ocorrido há apenas alguns dias. Na garagem, o mesmo carro que usavam Diana Teruggi e Daniel Mariani para passear com a filha, Clara Anahí.

Nos fundos, a mesma parede que Diana tentou pular com a filha nos braços, quando um comando de cerca de 200 militares e civis atacou a casa em 24 de novembro de 1976. Segundo moradores de La Plata, capital da província de Buenos Aires, foi o atentado mais violento da história da cidade. Além de Diana, assassinada quando tentava fugir com Clara Anahí, à época com apenas 3 meses, morreram Daniel Mendiburu Eliçabe, Roberto César Porfidio e Juan Carlos Peiris.

Todos, juntos com Daniel, assassinado em agosto de 1977, editavam a revista ¿Evita montonera¿, que em outubro de 1976 havia denunciado a existência de um campo clandestino de torturas na Escola de Mecânica da Marinha (Esma) e a sinistra metodologia usada pelos militares de atirar presos políticos vivos ao mar. Clara Anahí foi roubada pelos militares e até hoje continua sendo procurada por sua avó paterna, Maria Isabel Chorobik de Mariani, mais conhecida como Chicha, fundadora das Avós da Praça de Maio.

Avó mostra força na volta ao local do crime

Depois de quase 30 anos, o principal acusado pelo massacre, o ex-diretor de Investigações da polícia provincial, Miguel Etchecolatz, está sendo julgado graças à anulação das leis de Obediência Devida e Ponto Final, as chamadas leis do perdão, aprovadas durante o governo do ex-presidente Raúl Alfonsín (1983-1989).

Semana passada, o juiz encarregado do caso, Arnaldo Corazza, visitou a casa, hoje um museu dedicado à memória do caso, junto com Chicha. Foi um momento histórico para esta corajosa mulher de 83 anos, que há 30 anos tenta achar a neta roubada.

¿ Aqui morreu Diana ¿ disse Chicha, quando chegou aos fundos da casa.

O juiz, advogados da acusação, membros de organizações de defesa dos direitos humanos e amigos como Elsa Pavón, a primeira avó que encontrou um neto roubado, em 1984, observavam a força desta mulher com admiração.

Chicha explicou como funcionava cada cômodo da casa, até mesmo a gráfica escondida nos fundos, onde era editada a revista do movimento Montoneros.

¿ Ela é uma mulher incrível, no primeiro dia do julgamento falou durante três horas e quando perguntaram se estava cansada ela disse que não, pois tinha esperado 30 anos para falar ¿ comentou o advogado da acusação, Alejo Ramos Padilla, que já conseguiu uma importante vitória. Etchecolatz, que cumpria regime de prisão domiciliar no balneário de Mar del Plata, foi transferido para a prisão de Marcos Paz, na província de Buenos Aires. Segundo investigações, o ex-policial, que esteve à frente do departamento de Investigações entre março de 1976 e dezembro de 1977 e era considerado o braço direito do já falecido general Ramón Camps, chefe da polícia provincial durante os primeiros anos do governo militar, foi um dos chefes do ataque à casa.

¿ Naquele muro caminhou Etchecolatz ¿ apontou o advogado da acusação.

Casal estava feliz com `projeto de criar coelhos¿

Durante quase duas horas, Chicha reviveu os momentos mais dolorosos de sua vida. Com a ajuda dos jovens que integram a Associação Clara Anahí, fundada em 1996, a fundadora das Avós da Praça de Maio caminhou pela casa, lembrando não só da tragédia que mudou sua vida para sempre, mas também dos bons momentos com o único filho e a neta.

¿ Eles estavam felizes com o projeto de criar coelhos ¿ disse Chicha, visivelmente comovida.

De acordo com o jornalista Juan Martin Ramos Padilla, que escreve um livro sobre a vida de Chicha e a história das Avós da Praça de Maio, ¿a vida dela antes dessa tragédia era muito simples. Era professora, tinha um ótimo relacionamento com o filho e com a nora, e adorava a neta¿.

¿ Numa das tantas conversas que tivemos, Chicha comentou que um dia teve uma discussão com o filho e ele disse que ela não entendia nada de política. Veja só, para quem não entendia nada de política, tudo o que esta mulher foi e ainda é capaz de fazer ¿ afirmou Juan Martin.

Foram muitas emoções para Chicha, que terminou a visita inteira por fora, mas muito abalada por dentro, segundo ela mesma confessou. Em carta escrita para a neta, em agosto de 1981, Chicha disse uma grande verdade: ¿Confie em sua avó, que se transformou em aço para te procurar, mas voltará a ser ninho e calor quando te encontrar, minha pequenina¿.