Título: NOVA LEI ELEITORAL DEVE GERAR PERDAS DE R$4,4 BI
Autor: Aguinaldo Novo
Fonte: O Globo, 16/07/2006, Economia, p. 36

Faturamento menor e demissões refletem proibição de distribuição de camisetas, bonés e brindes nas campanhas

SÃO PAULO. Apucarana, no Norte do Paraná, está em pé de guerra. Na semana passada, cerca de quatro mil pessoas, entre empresários e trabalhadores, se reuniram na praça central da cidade para protestar contra as regras que vão regular as campanhas eleitorais deste ano. Por elas, os candidatos estão proibidos de distribuir camisetas e brindes em geral ou fazer propaganda em outdoors. Longe de mexer apenas com a estratégia dos partidos, a mudança na legislação vai afetar diretamente os resultados das 500 empresas de bonés instaladas no município, o que já levou os empresários do setor a falar em crise e demissões.

¿ O nosso pólo produtor é responsável por 85% da produção nacional de bonés neste período eleitoral. São cerca de 1,5 milhão a 2 milhões de peças por mês. Esse faturamento extra, importante para a maioria das empresas, não vai existir mais ¿ afirmou Jayme Leonel, sócio da Bonés Milano e integrante da direção do Arranjo Produtivo Local (APL) da cidade.

O protesto de Apucarana, conhecida como a ¿capital nacional do boné¿, não é isolado. Indústrias de vestuário, gráficas, de produtos promocionais (que contempla a fabricação de bonés) e mídia externa também fizeram as contas dos possíveis prejuízos com as restrições à campanha eleitoral. Juntos, esses setores estimam que vão perder quase R$4,4 bilhões em receita extra neste ano.

¿Perdas de alguns milhões de reais¿ no setor gráfico

Cerca de R$4 bilhões devem deixar de entrar no setor de vestuário, o equivalente a quase 13% do faturamento anual do setor. Entram nessa conta, além de camisetas, bolsas, coletes e chapéus de todos os tipos. No segmento de brindes, o cálculo é deixar de arrecadar entre R$250 milhões e R$300 milhões, enquanto as empresas de outdoors estimam evasão de R$18 milhões.

Sem definir uma cifra, o presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), Mário César de Camargo, fala em ¿perdas de alguns milhões de reais¿. Historicamente, as eleições representam um incremento de cerca de 2% ao setor gráfico, o equivalente a R$350 milhões. Esse dinheiro é empregado na impressão dos famosos santinhos, com a imagem dos candidatos, adesivos, cartazes, folders, banners e bandeirinhas.

¿ Ainda não temos como precisar o quanto isso representará em termos de faturamento. Mas, certamente, acarretará perdas de alguns milhões de reais ¿ afirmou Camargo.

Aprovada pelo Congresso e validada em maio pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a minirreforma nasceu com o propósito de facilitar a fiscalização dos recursos usados nas campanhas dos partidos. A maioria dos partidos diz que ainda tem dúvidas sobre a extensão das mudanças e que, por isso, não determinou como será a distribuição do dinheiro já arrecadado para a campanha. Ainda existe a possibilidade de as novas regras serem derrubadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que até agosto deve julgar três ações diretas de inconstitucionalidade contra a lei.

Uma dessas ações foi proposta pela Associação Nacional das Indústrias de Bonés, Brindes e Similares (Anibb), através da Confederação Nacional das Indústrias (CNI). O argumento é que a Constituição veta que haja trocas nas regras de campanha no próprio ano. Assim, elas só poderiam valer a partir de 2007.

¿ Até tivemos algumas consultas de candidatos antes de maio, mas nenhum pedido foi fechado ¿ conta Leonel, da Bonés Milano, empresa que previa aumentar em quase 19% a produção mensal de bonés durante a corrida eleitoral.

A produção de itens com valor unitário de R$0,10 (como adesivos) a R$5 sempre garantiu vaga temporária para trabalhadores desempregados nesta época do ano. Agora, além de dizer que não vão mais abrir novas vagas, os empresários ameaçam demitir quem já está empregado. O Sindicato dos Trabalhadores da Indústria do Vestuário de Apucarana e Região já contabilizou o corte de 700 pessoas nos últimos três meses.

Menos 5 mil vagas no ramo de produtos promocionais

O quadro não é diferente no ramo de produtos promocionais, em que as eleições chegam a representar até 5% do faturamento anual.

¿ Vamos deixar de criar cinco mil vagas temporárias (5% do quadro geral do setor) e as demissões não estão descartadas, caso as pequenas empresas não consigam compensar com outros contratos o que não for arrecadado com as eleições ¿ afirmou o diretor da Associação de Fabricantes de Produtos Promocionais (Approm), Auli Di Vitto.