Título: Desfecho em aberto
Autor: Deborah Berlinck
Fonte: O Globo, 16/07/2006, O Mundo, p. 39

BERLIM. Para o cientista político palestino Alam Jarrar, o conflito atual no Oriente Médio pode significar um retrocesso de mais de 30 anos e terminar envolvendo também a Síria e o Irã. ¿O final pode ser explosivo¿, disse Jarrar, em entrevista ao GLOBO.

O senhor vê semelhança entre o conflito atual e a guerras passadas?

ALAM JARRAR: O que nós temos é um conflito armado, com muitas vítimas na Palestina e no Líbano, que é atacado por terra, ar e mar. Além das vítimas, dos mortos e feridos, sofremos com a destruição de tudo, da infra-estrutura: 80% dos palestinos estão sem energia elétrica. A situação é muito crítica. Os hospitais não funcionam direito. A vida está paralisada. Há um clima de medo. Nós temos uma guerra com um desfecho ainda em aberto. Mas o pior será quando houver uma expansão do conflito como ocorreu no final dos anos 60. Na Palestina e no Líbano, a situação é semelhante à guerras passadas.

Se o conflito se expandir, quem serão os próximos envolvidos?

JARRAR: A Síria é o primeiro candidato a ser atacado por Israel, como indicam as várias ameaças que já foram feitas. Mas o Irã também pode ser atacado. Por enquanto, o Irã não tem nenhum interesse em envolvimento, pois tirou proveito com o conflito por deixar de ser o centro das atenções pelo seu programa nuclear. Mas um possível ataque de Israel ao Irã, vejo como um grande perigo de escalada maior do conflito para um nível ainda mais perigoso, com o risco de uso de armas atômicas.

O conflito pode prejudicar os governos de Israel e da Palestina, que já tem problemas, e tornar ainda mais instável a situação do Líbano?

JARRAR: No caso da Palestina, eu diria que parece um paradoxo, mas o vencedor se chama Hamas, que tirou proveito político. De repente, os palestinos, que estavam brigando uns com os outros, redescobriram o inimigo comum, que é Israel, e não Hamas ou Fatah. Com o aumento da ameaça de fora, apressaram-se em preparar um documento, um acordo entre os dois, que deverá ser assinado nos próximos dias. No caso de Israel, há o risco de o premier Ehud Olmert se desgastar, dependendo do grau de perdas da população civil de Israel. No Líbano, o resultado pode ser um fortalecimento do Hezbollah.