Título: O SILÊNCIO DOS ESTADOS UNIDOS
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 16/07/2006, O Mundo, p. 40
Um dos mais notáveis fenômenos das últimas semanas é a ausência do fator americano. É verdade que houve conversas telefônicas com a secretária de Estado, Condoleezza Rice, o embaixador dos EUA recebe atualizações, e o embaixador americano na ONU se opõe a resoluções que instam Israel a acabar sua operação militar na Faixa de Gaza. Mas em termos de influência direta nos fatos, tem havido um silêncio americano absoluto.
Procurando recordar o passado, lembro do envolvimento do governo Nixon na ponte aérea que salvou Israel durante a Guerra do Yom Kipur. Lembro de Carter, que levou a um final exitoso a cúpula de Camp David em 1978 e à paz entre Israel e Egito. E do governo Reagan, que contribuiu para um cessar-fogo entre Israel e a OLP em 1981.
O governo de Bush pai conduziu o caminho para a Conferência de Madri em 1991 e abriu um novo capítulo para o Oriente Médio. Houve o intensivo envolvimento de Clinton no conflito israelense-palestino na década de 1990, que começou com os Acordos de Oslo e continuou com um esforço ante as instituições da OLP em Gaza para convencê-las a mudar a constituição palestina.
O 11 de Setembro e suas conseqüências, a guerra no Afeganistão, a guerra no Iraque, e o pesadelo iraquiano resultaram numa quase total ausência dos Estados Unidos de qualquer envolvimento no conflito israelense-palestino. O presidente Bush não visitou Israel desde quando foi governador no Texas. Os vários enviados que despachou para a área não chegaram a provocar o menor impacto.
Os EUA estão isolados de vários países muçulmanos. Não têm qualquer forma de diálogo com Irã ou Síria, boicotam o governo do Hamas, e tudo o que sobrou para Rice fazer é ligar para Israel, Egito e Jordânia. Quando a última crise irrompeu, quando o lançamento de foguetes Qassam aumentou e a violência se intensificou, Israel, naturalmente, voltou-se para o mesmo agente que lhe permitiu retirar-se da Faixa de Gaza: o Egito.
Na hora da verdade, quando Israel precisa de uma poderosa terceira parte capaz de fazer as coisas andarem na região, revela-se que pouco pode ser esperado, além da repetitiva recitação da visão de Bush e do empoeirado Mapa da Paz, o qual parece que nenhum dos lados pretende de fato implementar.
YOSSI BEILIN é presidente do partido Meretz-Yahad e um dos principais articuladores dos Acordos de Oslo e da Iniciativa de Genebra