Título: SEQÜESTROS AMEAÇARIAM SUPREMACIA DE ISRAEL
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 16/07/2006, O Mundo, p. 40

Para empresa de inteligência dos EUA, captura de soldados tira de israelenses superioridade nas táticas de guerra

WASHINGTON. Por que o seqüestro de três soldados israelenses provocou uma resposta tão intensa ¿ desproporcional, na visão do governo dos Estados Unidos ¿ do governo de Israel? Por uma questão cultural que, a médio ou longo prazo, poderia colocar em risco a própria existência de Israel.

¿Os seqüestros representam um nível de proeza tática que anteriormente era domínio israelense. E eles também representam um nível de negligência tática do lado israelense que antes era própria dos árabes¿. É o que diz um informe que analistas da Stratfor, uma prestigiosa e influente firma do Texas especializada em inteligência, chamada de ¿a CIA particular¿, colocaram dois dias atrás sobre a mesa do seu principal cliente, o governo dos EUA.

Israel teria campo livre para invadir Líbano, diz estudo

Para eles, o fator cultural é tão forte que provavelmente levará Israel a invadir o Líbano e ninguém fará nada para impedir isso. ¿A resposta mundial será ruidosa. Mas não haverá nenhuma ação substancial contra Israel¿, conclui o estudo.

A análise diz que Israel vive com três realidades: geográfica, demográfica e cultural. Na primeira, o país está em desvantagem permanente, pois lhe falta ¿profundidade estratégica¿ ¿ embora tenha a capacidade de mover suas forças rapidamente de um lado a outro, dentro de seu território. Do ponto de vista demográfico, Israel tem menos gente do que os árabes ¿embora possa alcançar superioridade local, em números, através da escolha da hora e do local da guerra¿. A sua grande vantagem, segundo a Stratfor, é cultural, pois Israel domina, com maestria, a tecnologia e a cultura da guerra.

¿Duas das realidades não podem ser mudadas. Nada pode ser feito sobre geografia e demografia. Mas a cultura, sim, pode ser modificada¿, dizem os analistas, acrescentando que ¿o grande temor inerente de Israel é de que os árabes igualem ou superem culturalmente a perícia israelense e, portanto, a militar. Se isso vier a acontecer, então as três realidades vão se virar contra Israel e o país poderá muito bem estar a perigo¿, diz o serviço de inteligência.

Segundo os seus analistas, os eventos recentes praticamente não representam uma mudança fundamental no equilíbrio de forças na região. ¿No entanto, para um país que depende de sua superioridade cultural, qualquer tremor nessas variáveis reverbera dramaticamente. Hamas e Hezbollah atingiram o centro nervoso israelense. Israel não pode ignorar isso¿, diz outro trecho do informe.

Na opinião da Stratfor é difícil superestimar, na alma israelense, o impacto dos seqüestros: ¿Primeiro, enquanto os militares israelenses são extremamente bem treinados, Israel é também um país com recrutamento militar em massa. Ter um soldado seqüestrado por árabes atinge toda família no país. A velha geração está chocada com o fato de membros da geração mais jovem terem sido capturados, e preocupada com o fato de eles terem se deixado capturar. E, portanto, a nova geração precisa também provar que pode derrotar os árabes.¿

O fator mais fundamental seria o de que Israel saiu do Líbano, anos atrás, para escapar do conflito de baixa intensidade. E se agora o Hezbollah for impor um conflito dessa categoria, desaparecerá a lógica para a retirada.