Título: Iniciativa diplomática dá novo impulso à exportação
Autor: Eliane Oliveira
Fonte: O Globo, 10/07/2006, Economia, p. 17
BRASÍLIA. Decidido a expandir a presença do Brasil nos países em desenvolvimento, o Itamaraty abriu ou reabriu, desde o início deste governo, em janeiro de 2003, 24 postos no exterior, dos quais 14 embaixadas, a maioria em nações africanas, sul-americanas, caribenhas e centro-americanas. A Iniciativa se insere no projeto de integração Sul-Sul, defendido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As críticas recebidas de correntes que reivindicam prioridade para os mercados mais ricos não incomodam a diplomacia brasileira. Por motivo simples: comércio. Por exemplo, as vendas para a África cresceram 153% no período e para a Liga Árabe, 100%.
Seguindo o raciocínio de que a geopolítica acaba obedecendo à lógica comercial, o Itamaraty constatou que as exportações para o Caribe chegaram a US$ 2,4 bilhões em 2005, valor equivalente às vendas do Brasil para a França. Só para as Bahamas (que compram automóveis, petróleo bruto e carnes brasileiras), o aumento de vendas foi de 1.362% nos últimos três anos.
Para a África, onde quase não havia comércio, a pauta de exportações é variada, indo de carnes em geral e açúcar a carros, máquinas e equipamentos. Em mercados não-tradicionais, como Belize, as vendas subiram 86% em 2005.
O embaixador Ricardo Neiva Tavares, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, dá explicações:
¿ Não nos descuidamos dos mercados desenvolvidos, mas temos procurado ampliar o relacionamento externo do Brasil com os países em desenvolvimento. Nosso objetivo é multidimensional.
Para o deputado Paulo Delgado (PT-MG), a linha seguida pelo Brasil não é uma vocação, mas um objetivo político, em que o elemento central deve ser sempre a idéia das relações bilaterais, como instrumento de paz e cooperação:
¿ O comércio é um instrumento de paz.
Já o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Armando Meziat, acentua que, até o início deste século, o Brasil concentrava seu comércio exterior quase que totalmente nos Estados Unidos e na Europa:
¿ É importante que conheçam lá fora o que produzimos. Esse caminho é irreversível.
O diretor do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Humberto Barbato, por sua vez, reconhece como positivo o trabalho do Itamaraty, mas adverte que uma política não deve excluir a outra:
¿ Não devemos nos esquecer dos mercados dinâmicos. A idéia de se trabalhar mercados alternativos, como a África, pode não agradar. Devido a problemas de crédito, o Brasil se deu mal no passado.
Já o vice-presidente para Assuntos Internacionais da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Gilman Viana Rodrigues, deixa claro que o agronegócio não está totalmente satisfeito com a política externa:
¿ Não é condenar por condenar. Mas quando se dá baixa preferência a um relacionamento comercial maior com os grandes consumidores do mundo, que são os asiáticos, a Europa e os Estados Unidos, são adotados pesos diferentes quanto aos objetivos comerciais.
O presidente da Vale do Rio Doce, Roger Agnelli, diz que a aproximação com o continente africano é um dos mais acertados desdobramentos da política externa brasileira. Segundo ele, além de exportador de produtos primários, serviços e manufaturados, o Brasil começa a vender capital e tecnologia. Mas ele faz ressalvas:
¿ Não basta abrir embaixadas em países com os quais o Brasil ainda tem laços estreitos, sobretudo na África e na Ásia Central. É necessário dar-lhes condições adequadas de trabalho, com suficientes recursos humanos e materiais.