Título: Oferta é bem recebida pelo mercado e ações das empresas têm forte alta
Autor: Patricia Eloy e Martha Beck
Fonte: O Globo, 18/07/2006, Economia, p. 22

Apesar da queda do Ibovespa, Perdigão valorizou 17,6% e Sadia, 8,77%

RIO e BRASÍLIA. A oferta da Sadia pela Perdigão foi bem recebida no mercado financeiro, onde as ações reagiram à operação com forte valorização. Ontem, os papéis da Perdigão e da Sadia tiveram as duas maiores alta do Ibovespa (que caiu 1,37%): 17,6% e 8,77%, respectivamente. Analistas acreditam que as empresas saem ganhando com o negócio, mas a Sadia pode ter que reavaliar o preço oferecido pelos papéis da Perdigão, considerado baixo por alguns especialistas.

Outra dúvida é se o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovará a concentração de mercado decorrente da oferta. Em alguns segmentos, as empresas teriam, juntas, 95% de participação.

Para Marcello Milman, analista de varejo da Espírito Santo Research, a Sadia foi oportuna na oferta: pode tirar seu maior competidor do mercado e, ao mesmo tempo, terá ganhos com sinergia.

¿ Os acionistas da Perdigão vão receber um valor bem acima do de mercado e a Sadia deixa de ser uma potencial comprada para se transformar em compradora, consolidando a liderança. Mas, como as empresas devem ter, juntas, 50% do mercado, resta saber se o Cade aprovará a operação. A forte alta das ações hoje mostra que o mercado trabalha com o aval do Cade ¿ diz Milman, que considerou justo o preço da Sadia, de R$27,88 por ação.

Márcio Kawassaki, analista da Fator Corretora, avalia que a Sadia deve rever o valor da oferta. Segundo seus cálculos, a Perdigão vale pelo menos R$35 por ação. Segundo analistas, o preço seria o mesmo estabelecido pelo ABN Amro ¿ intermediário da oferta da Sadia ¿ há algumas semanas.

¿ A Sadia fez a oferta quando os papéis da Perdigão vinham caindo, fragilizados pela queda no consumo e pelos efeitos da gripe aviária na Europa. Foi uma oferta a um preço baixo, por isso acredito que seja feita nova proposta. A dúvida é qual será a decisão do Cade. No segmento de massas congeladas, as empresas teriam, juntas, 95% do mercado. É uma enorme concentração ¿ diz Kawassaki.

Para analistas, compra deve ser aprovada com restrições

A Petros ¿ fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, que detém 11,63% da Perdigão ¿ não comentou a operação. A Previ, fundação do Banco do Brasil e maior acionista da Perdigão, com 15,31%, informou que ainda avalia a proposta. Para analistas, as fundações não devem impor restrições.

A compra da Perdigão pela Sadia só deverá ser aprovada pelo Cade com restrições, segundo especialistas em concorrência ouvidos pelo GLOBO. O ex-presidente do Cade e ex-secretário de Direito Econômico Ruy Coutinho do Nascimento destacou que a união resultará numa grande concentração em alguns mercados, como o de presunto, o que pode fazer com que o governo adote medidas para evitar prejuízo a demais competidores.

Coutinho lembrou que a operação deve provocar uma concentração de 60% no mercado de presunto e de 70% no caso dos pratos prontos, como pizzas congeladas. Já na área de abate nacional de aves, a nova empresa terá 25% do mercado. Esse percentual será de 23% no caso do abate nacional de carne suína.

¿ Qualquer mercado com concentração acima de 20% já acende a luz amarela para o Cade ¿ afirmou Coutinho.

Para ele, a concentração pode ser comparada à criação da AmBev, união entre Brahma e Antarctica. A fusão foi aprovada, mas teve algumas, entre elas, a venda da marca de cerveja Bavaria.

¿ Agora está criada a AmBev da proteína animal ¿ disse.

O conselho também impôs restrições a outras operações, como a compra da Kolynos pela Colgate. A Colgate ficou impedida de vender produtos Kolynos por quatro anos. Mais recentemente, o Cade proibiu a fusão entre Nestlé e Garoto, por danos à concorrência no Brasil.

¿ Este caso não é trivial em termos de concentração ¿ afirmou o ex-conselheiro do Cade Cleveland Prates.

Para ele, os conselheiros terão de observar se a concentração será compensada por algum ganho de eficiência para as empresas. O Cade também deve observar se o ato dificultará a entrada de competidores no mercado ou trará dano aos consumidores.

O ex-presidente do Cade Gesner de Oliveira lembrou que Sadia e Perdigão são grandes exportadoras e já chegaram a fazer uma joint-venture para vender carnes a outros mercados.

¿ A dinâmica da operação é diferente. O mercado externo é um elemento bastante relevante para análise dos conselheiros ¿ disse Gesner.

O Cade não quis comentar a operação, porque não foi notificado pelas empresas. As secretarias de Acompanhamento Econômico, do Ministério da Fazenda, e de Direito Econômico, do Ministério da Justiça também não comentaram o caso.