Título: LULA CRITICA RESISTÊNCIA FRANCESA A FIM DE SUBSÍDIO
Autor: Cristiane Jungblut
Fonte: O Globo, 18/07/2006, Economia, p. 27
Presidente brasileiro cobra empenho dos líderes de nações ricas para destravar negociações da rodada da OMC
SÃO PETERSBURGO (Rússia). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez críticas ontem à resistência do presidente da França, Jacques Chirac, em avançar nas negociações da Rodada de Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC). Lula cobrou dos países ricos uma decisão política mais imediata para destravar as discussões e afirmou que a omissão nesse caso é inaceitável. Ele terminou sua participação no encontro do G-8 ¿ grupo dos sete países mais ricos do mundo e a Rússia ¿ admitindo que as dificuldades ainda não foram totalmente superadas, apesar de ter sido estabelecido um prazo de 30 dias para avançar na Rodada.
As ponderações de Lula sobre a França foram feitas durante a reunião com o presidente da Rússia, Vladimir Putin. Para tentar superar essas resistências, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, viajou a Genebra antes do fim do encontro para reunir-se com outros negociadores.
¿ Continuo otimista de que o presidente Chirac vai ceder um pouco ¿ disse Lula a Putin. ¿ Penso que, se não fizermos um acordo, estaremos contribuindo para um retrocesso no comércio exterior dos países mais pobres.
A França é o país que mais resiste a reduzir os subsídios agrícolas. Chirac chegou a afirmar que o G-8 não era o fórum adequado para tomar decisões sobre comércio.
Horas depois, no encontro com o presidente dos EUA, George W. Bush, Lula voltou à carga, pedindo liderança dos chefes de Estado. Ouviu que, da parte de Bush, o comprometimento já existe. Já em seu discurso durante a reunião geral do G-8, Lula afirmou que a Rodada de Doha está em crise:
¿ Não é uma crise técnica. É uma crise política. É uma crise de falta de liderança.
`Patamar atual dos subsídios é ilegal e desumano¿
O presidente brasileiro disse que estava pronto a orientar seus negociadores a terem mais flexibilidade nas negociações e afirmou que não esperava menos dos demais chefes de Estado. Nesse momento, Lula acabou se auto-elogiando, ao dizer que ¿os líderes surgem em momentos de crise¿ e ¿não em situação de tranqüilidade¿. E não poupou críticas aos subsídios agrícolas dos ricos:
¿ É inaceitável e simplório o argumento de que os meus subsídios apenas compensam os subsídios dos outros. O patamar atual dos subsídios é excessivo, ilegal e desumano.
Lula, segundo assessores, demonstrou irritação em vários momentos e não participou de entrevistas coletivas oficiais. Integrantes do governo disseram que a declaração de Lula sobre a França ocorreu devido à posição isolada de Chirac sobre um entendimento.
Ecoando Lula, o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, afirmou que a responsabilidade de um fracasso da Rodada de Doha estava nas mãos dos líderes dos países ricos.