Título: AS DIFERENÇAS NAS REAÇÕES DE ISRAEL E ÍNDIA
Autor:
Fonte: O Globo, 18/07/2006, O Mundo, p. 29

Antes de as coisas darem uma guinada no Oriente Médio, vamos precisar de uma diplomacia equivalente a uma terapia com choques elétricos. Precisamos do preço do barril de petróleo a US$100 para balançar os europeus e os chineses. Precisamos lembrar aos russos que, do jeito que estão, podem esquecer a idéia de aderir à Organização Mundial do Comércio. E precisamos também de algo surpreendente para recompensar a Índia, cuja resposta ao terrorismo na semana passada foi exemplar.

A comparação entre Índia e Israel revela diferenças espantosas. Os terroristas do Hezbollah realizaram incursões que resultaram em oito mortos e dois seqüestrados, e despejaram foguetes no norte de Israel.

Os israelenses, de forma justificada, responderam com bombardeios sobre posições do Hezbollah. Mas não foi só isso. Abriram fogo também contra o Aeroporto Internacional de Beirute, prédios residenciais e destruíram a infra-estrutura de um novo e esperançoso Líbano.

Quase todo mundo sabe que governos fracos são bons refúgios para terroristas. Com suas amargas experiências nos territórios palestinos e no Líbano anteriormente, os israelenses deveriam se assegurar de que as ações, desta vez, seriam mais eficazes do que as anteriores. Mas seus líderes, no entanto, parecem determinados a repetir os erros já cometidos. Eles reclamam que o governo libanês tem falhado no objetivo de conter os terroristas do Hezbollah, enquanto destroem a infra-estrutura que dá ao mesmo governo libanês sua única chance de funcionar.

Agora, consideremos a Índia. Ataques coordenados com bombas na rede ferroviária de Bombaim mataram 182 pessoas e feriram centenas. No mesmo dia, um ataque com granada em uma rodoviária na Cachemira feriu pelo menos seis turistas.

Os indianos anunciaram que um novo grupo que luta pela independência da Cachemira, chamado Lashkar-e-Taiba, é o principal suspeito pelos ataques em Bombaim. Assim como o Hezbollah está infiltrado na sociedade libanesa e em setores governamentais, o grupo paquistanês atua livremente no país e pode ter sido ajudado por serviços de inteligência.

E qual foi a resposta da Índia? Sem represálias, sem bombardeios, sem ameaças ao Paquistão e sem o deslocamento de tropas para a fronteira. Em vez disso, os indianos se limitaram a dizer aos paquistaneses que o encontro de ministros de Relações Exteriores dos dois países estava adiado. Estão pedindo ao governo Bush e à ONU que pressionem o Paquistão a endurecer com os terroristas. E vão conseguir.

Essa é a diferença entre Israel e Índia. O desafio no Oriente Médio é mostrar que a diplomacia pode funcionar. E para isso, potências como Europa, China e Rússia devem parar de apenas clamar pelo diálogo e trabalhar por uma diplomacia de fato.