Título: O ESCÂNDALO DOS 10%
Autor: Alan Gripp
Fonte: O Globo, 19/07/2006, O País, p. 3

Lista de investigados pelo STF e pela CPI dos Sanguessugas atinge 57 parlamentares

OCongresso Nacional passou ontem a ser oficialmente alvo da investigação que envolve o maior número de parlamentares de sua História. Com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) para a abertura de mais 42 inquéritos contra parlamentares suspeitos de envolvimento com a máfia dos sanguessugas, 57 parlamentares (9,55% do Congresso) passam a ser investigados num só escândalo tanto pelo tribunal quanto pela CPI dos Sanguessugas.

A lista dos supostos envolvidos, divulgada ontem pela comissão, tem 56 deputados e um senador (Ney Suassuana, do PMDB-PB). Todos são acusados de apresentar emendas ao Orçamento da União que teriam resultado na compra superfaturada de ambulâncias, ônibus escolares e outros equipamentos. Dos 57, a maior bancada é do Estado do Rio, com 13 suspeitos. Os partidos de outro escândalo recente ¿ o do mensalão ¿ têm mais de 66% dos nomes investigados agora pela máfia das ambulâncias.

A divulgação dos nomes dos investigados pelo Supremo Tribunal foi autorizada ontem à CPI pelo ministro Gilmar Mendes, que, no entanto, manteve o sigilo sobre os detalhes dos inquéritos. A lista revela que o esquema pode ter se disseminado por grande parte do Congresso, atingindo parlamentes de dez dos 17 partidos com representação no Legislativo. Eles representam nada menos do que 20 dos 27 estados da federação. Os parlamentares foram notificados ontem pela CPI e têm cinco dias para apresentar suas defesas.

Certo de que será alvo de pressões de todos os lados, o presidente da CPI, deputado Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ), mandou ontem um recado aos seus colegas investigados:

¿ As pessoas vão se movimentar, mas eu sou imune a pressões ¿ afirmou Biscaia, que já foi procurador-geral de Justiça do Estado do Rio e um dos responsáveis pela investigação contra os bicheiros cariocas.

Biscaia disse não se sentir constrangido por investigar tantos colegas:

¿ Não faço com satisfação, mas não há constrangimento algum. Cumpro o meu dever.

Na lista, representantes de 20 estados e dez partidos

A lista de parlamentares deve aumentar nos próximos dias, quando os deputados da comissão vão se debruçar sobre as mais de 150 páginas de depoimento do empresário Luiz Antônio Trevisan Vedoin, apontado como articulador do esquema, à Justiça Federal de Mato Grosso. Ao longo de dez dias, com pausas apenas para dormir, Vedoin deu informações e documentos que comprometeriam pelo menos 90 parlamentares e dez ex-parlamentares com o esquema de superfaturamento na compra de ambulâncias com verbas públicas.

A CPI promete concluir em 30 dias o relatório final. O documento recomendará aos conselhos de Ética da Câmara e do Senado a abertura de processos de cassação do mandato contra os parlamentares contra os quais existirem provas. O prazo final para a entrega do documento é 18 de agosto. Embora admita prorrogar os trabalhos da CPI, que continuariam após as eleições, Biscaia disse acreditar que parte do trabalho pode ser perdido.

¿ Aquilo que necessitar de diligências ficará para trás. E o que tiver provas contundentes será conhecido pelo Brasil ¿ disse o presidente da CPI.

Desde ontem, a comissão criou um arquivo eletrônico com informações sobre cada parlamentar suspeito. Segundo o relator da CPI, senador Amir Lando (PMDB-RO), eles serão separados de acordo com o grau de comprometimento e dos indícios.

¿ Vamos estabelecer níveis de envolvimento. Há provas mais contundentes contra alguns e menos contra outros (parlamentares) ¿ disse.

A grande maioria dos envolvidos é candidata à reeleição. Caso retornem ao Congresso pelas urnas, eles poderão responder a processos de cassação na próxima legislatura. Se forem condenados pela Justiça, perdem automaticamente o mandato. Para isso acontecer, porém, é preciso que sejam esgotadas todas as possibilidades de recurso.

A senadora Heloísa Helena (AL), integrante da CPI e candidata à Presidência, defendeu a divulgação de todos os suspeitos apontados pelo empresário à Justiça:

¿ Mais de 40 parlamentares ficaram fora dessa lista divulgada. Se nossa intenção é desvendar esse esquema, é preciso identificar todas as suas ramificações ¿ afirmou a senadora ontem.