Título: RISCO DIPLOMÁTICO
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Fonte: O Globo, 19/07/2006, Opinião, p. 6
Opresidente Lula não precisou de qualquer esforço adicional para o G-8, o grupo das sete nações mais ricas do mundo e a Rússia, acolher o tema da Rodada de Doha na sua agenda de preocupações. Antes de qualquer contato formal dos sócios do G-8 com Lula e os representantes dos demais países convidados para a reunião de São Petersburgo ¿ México, África do Sul, Índia, China e Congo ¿ a nota divulgada pelo grupo no domingo citou o impasse nas negociações em curso na Organização Mundial do Comércio, OMC, e ainda estabeleceu o prazo de um mês para se tentar fechar um acordo em torno dos subsídios agrícolas e barreiras protecionistas em geral.
Como, entre os sete ricos do G-8 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Inglaterra, França, Canadá e Itália), americanos, franceses e japoneses formam a linha de frente da resistência à reivindicação do G-20, co-liderado pelo Brasil, de um corte substancial nesses subsídios e uma grande redução nas barreiras tarifárias, a referência ao tema feita em São Petersburgo tem razoável importância política.
As críticas do presidente Jacques Chirac à ênfase dada pelo Brasil à necessidade de o Primeiro Mundo ser menos protecionista no comércio agrícola mostraram a Lula o que acontece com as amabilidades francesas quando interesses concretos do país são atingidos: elas desaparecem. Chirac está sempre disposto a aplaudir propostas de assistencialismo feitas por Lula. Mas reage de forma radical quando há risco de a agricultura francesa ser exposta à competição externa.
Ficou decidido que a tentativa de acordo ocorrerá em reuniões nos próximos dois fins de semana em Genebra. Margem para isso parece existir, apesar do radicalismo francês. Americanos e o bloco europeu estão mais flexíveis ¿ ou menos inflexíveis. A Europa, por exemplo, já aceita um corte médio nas tarifas de 50%, perto dos 54% defendidos pelo G-20.
Doha expira em dezembro e o tempo também é curto pelo lado americano, pois o mandato concedido pelo Congresso para a Casa Branca negociar acordos comerciais vence em meados do ano que vem. Sem a Alca e com um Mercosul em crise, a diplomacia comercial brasileira corre o risco de encerrar os quatro anos do governo Lula com um balanço negativo.