Título: SINIORA: `ISRAEL ABRIU AS PORTAS DO INFERNO¿
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Fonte: O Globo, 19/07/2006, O Mundo, p. 32

Premier do Líbano acusa governo vizinho de querer fazer seu país retroceder 50 anos com ataques à infra-estrutura

BEIRUTE e JERUSALÉM. No sétimo dia de ataques a seu país, o primeiro-ministro Fuad Siniora disse ontem que Israel ¿está abrindo as portas do inferno e da loucura¿ sobre o Líbano e pediu que a comunidade internacional force seu poderoso vizinho do sul a um cessar-fogo. Numa entrevista à rede de TV britânica BBC, Siniora exortou o grupo extremista Hezbollah a libertar os dois militares israelenses cujo seqüestro foi uma das razões alegadas por Israel para justificar o violento bombardeio do país, que já deixou um rastro de mais de 230 mortes, a grande maioria civis.

O premier libanês acusou Israel ¿ cujo território também tem sido alvo de ataques de foguetes com um total de 25 vítimas ¿ de responder de forma desproporcional à crise e de atacar a infra-estrutura civil do país com o objetivo de fazer o Líbano ¿retroceder 50 anos¿.

Olmert reitera condições para deter ataques

Por sua vez, o premier Ehud Olmert afirmou aos representantes da ONU enviados para propor um cessar-fogo que Israel continuará atacando até que os militares sejam libertados e o país esteja seguro dos foguetes do Hezbollah. O governo deixou em aberto a possibilidade de aceitar uma força internacional na fronteira, mas apenas como complemento ao Exército libanês.

Ontem o dia terminou com mais 31 mortes do lado libanês e uma do israelense. Aviões da Força Aérea de Israel bombardearam um quartel do Exército libanês a leste de Beirute, matando 11 militares e ferindo 30, e uma outra base militar perto da capital. Na cidade de Aitaroun, no sul, uma das mais atingidas, os corpos de nove pessoas foram retirados dos escombros de uma casa que abrigava duas famílias, atingida de madrugada.

¿ Nem sei mais onde era o nosso bairro ¿ desesperou-se o xiita Hassan, procurando o lugar onde ficava sua casa num subúrbio de Beirute continuamente atacado pela aviação israelense. ¿ Eles ainda estão bombardeando a área para transformá-la em pó. Que tipo de crime é este?

Em Israel, 11 foguetes caíram em Nahariya, provocando a morte de um homem que se dirigia a um abrigo antiaéreo, e outros seis atingiram Haifa. Safed, Carmiel, Maalot, Akko e Tiberíades também foram alvos de ataques do Hezbollah, que fizeram 30 feridos ontem em mais de uma dezena de lugares. Numa pesquisa divulgada pelo jornal ¿Yedioth Ahronoth¿, 86% dos entrevistados disseram apoiar os bombardeios no Líbano.

¿ Estamos matando aqueles que necessitamos matar ¿ justificou Hanna Dehan, de 60 anos, em Haifa.

Reocupação do sul do Líbano não é descartada

As autoridades militares, que não descartam a reocupação de uma parte do sul do Líbano ¿ de onde Israel se retirou em 2000 sob pressão do Hezbollah ¿ anunciaram a convocação de três batalhões de reservistas. Fontes militares disseram ao jornal ¿The Jerusalem Post¿ que os ataques já destruíram entre 40% e 50% da capacidade bélica do Hezbollah e que deverá ser necessária pelo menos mais uma semana de bombardeios para neutralizar o grupo. Até agora o Hezbollah admitiu ter perdido apenas cinco militantes nos ataques.

¿ A esta altura, não achamos que temos de mandar contingentes maciços de forças de terra para o Líbano, mas se tivermos de fazer isso, faremos ¿ disse o subchefe do Exército israelense, general Moshe Kaplinsky.