Título: ONU: morte de civis pode ser crime de guerra
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Fonte: O Globo, 20/07/2006, O Mundo, p. 31
No dia mais sangrento, 71 não-combatentes morrem em Líbano, Israel, Cisjordânia e Gaza
BEIRUTE e JERUSALÉM
No dia mais sangrento desde o início do intenso bombardeio do Líbano por forças israelenses na semana passada, 63 civis morreram ontem em várias áreas do país atingidos por bombas, mísseis, estilhaços ou soterrados sob toneladas de escombros, enquanto milhares fugiam para o norte tentando afastar-se o mais possível do fogo inimigo. A violência dos ataques, que fez o número de mortes de civis libaneses e estrangeiros chegar a quase 300, coincidiu com a advertência da alta comissária de Direitos Humanos da ONU, Louise Arbour, de que o bombardeio indiscriminado de cidades ¿ tanto no Líbano e nos territórios palestinos como em Israel ¿ pode constituir crime de guerra.
O oitavo dia de enfrentamentos entre o grupo xiita libanês Hezbollah e Israel viu um desesperado primeiro-ministro Fuad Siniora repetir seu apelo por um cessar-fogo que detenha a destruição de seu país. Ambos os lados, no entanto, se disseram prontos a continuar a luta até que seus objetivos sejam alcançados: Israel exige a libertação de dois militares seqüestrados, o desarmamento do Hezbollah e o fim dos ataques de foguetes contra seu território, enquanto o grupo xiita quer a troca dos reféns por prisioneiros libaneses em cárceres israelenses.
Apanhada no meio do fogo cruzado, a população civil de ambos os lados continua sofrendo, embora o número de vítimas seja desproporcionalmente superior entre os libaneses. Ontem, 17 pessoas morreram e 30 ficaram feridas num ataque aéreo que destruiu casas na aldeia de Srifa, no sul do Líbano.
¿ Houve um massacre aqui ¿ lamentou o prefeito Afif Najdi.
Outras 46 pessoas perderam a vida em bombardeios em diversas áreas. O Hezbollah anunciou a morte de mais um de seus militantes, o sexto até agora. Numa entrevista ao jornal francês ¿Le Figaro¿, o premier Fuad Siniora disse que ¿os israelenses praticamente não atingem o Hezbollah; eles matam civis libaneses¿. Israel, no entanto, alega que já destruiu 50% da capacidade de fogo do grupo xiita.
Num ataque de foguetes contra Israel, duas crianças de origem árabe morreram em Nazaré, elevando para 15 o número de civis mortos no país. Autoridades da cidade, de população majoritariamente árabe-israelense, reclamaram que não há alarmes antiaéreos nem abrigos e que os avisos da polícia são dados apenas em hebraico, língua que nem todos entendem. Haifa voltou a ser atingida e houve dezenas de feridos em várias localidades do norte de Israel. Já nos territórios palestinos, 14 pessoas morreram em ataques das forças israelenses, entre elas seis civis, e 60 ficaram feridas. À noite, a Cisjordânia foi fechada pelo Exército de Israel.
Preocupada com o morticínio, a alta comissária de Direitos Humanos da ONU advertiu que a escala e a previsibilidade das mortes podem configurar crimes de guerra. Segundo a canadense Louise Arbour, o bombardeio de cidades causando sofrimento de civis é inaceitável e quem estiver em posição de comando é passível de ser responsabilizado. Segundo ela, a lei humanitária internacional é clara sobre a obrigação de proteger não-combatentes em qualquer conflito.
¿ Esta obrigação também está expressa na lei penal internacional, que define crimes de guerra e crimes contra a Humanidade ¿ disse ela.
Por sua vez, o relator especial para Direitos Humanos em Saúde da ONU, o neozelandês Paul Hunt, pediu uma investigação independente sobre possíveis crimes de guerra cometidos por Israel em Gaza. Ele ressaltou que a situação naquele território palestino piora a cada dia e disse que o ataque israelense a uma estação elétrica, causando corte de energia e de água, foi uma violação da lei humanitária internacional. Hunt também citou o que chamou de ¿resposta desproporcional de Israel¿ contra os ataques palestinos.
Em incursões no sul do Líbano ontem, dois soldados israelenses morreram e nove ficaram feridos no confronto com militantes do Hezbollah.