Título: TEL AVIV E A ANGUSTIANTE ESPERA PELO ATAQUE
Autor: Renato Malkes
Fonte: O Globo, 20/07/2006, O Mundo, p. 34

Rotina da capital cultural de Israel começa a mudar e moradores se informam sobre onde poderão se proteger

TEL AVIV. Nove dias após o início do fogo cruzado entre o grupo fundamentalista islâmico Hezbollah e o Exército israelense no norte do país, a bolha de Tel Aviv parece estar prestes a estourar. A cidade litorânea considerada capital financeira e cultural de Israel ganhou nos últimos anos o apelido de bolha por estar isolada, sempre alheia às crises políticas, militares e ideológicas do país. O berço das últimas modas, palco das boates mais badaladas, dona de praias límpidas e de dezenas de cafés ao estilo europeu vem trocando o ar descontraído e cosmopolita pela apreensão. A ameaça de um ataque do Hezbollah e as advertências do Exército para que os moradores estejam atentos deram um tom de preocupação às ruas.

Moradores se informam sobre abrigos subterrâneos

Embora a maioria dos tel avivim, como são chamados em hebraico seus habitantes, negue ter mudado seus hábitos devido à guerra, é impossível passar despercebida a preocupação com os acontecimentos na fronteira com o Líbano. Em muitas lojas e quiosques há sempre uma televisão ligada no noticiário transmitido ao vivo do front e em táxis e ônibus, o rádio fica sintonizado nas notícias. Nos cafés, as rodas de conversas giram em torno da guerra e o comércio já sentiu uma pequena queda do movimento. Segundo o cabeleireiro Zohar, de 32 anos, dono de um salão no maior shopping center da cidade, há muitos anos não se sentia um clima tão pesado no país:

¿ É a guerra. Nós costumamos trabalhar com a TV ligada em canais de música ou moda, mas desta vez me rendi às notícias. Nem mesmo quando há atentados e todos sofrem de uma crise de estresse coletivo eu costumo ouvir noticiário, mas agora está impossível.

A possibilidade de uma chuva de mísseis colocou o município em estado de alerta. Uma central telefônica foi montada especialmente para atender às chamadas dos moradores e indicar a localização exata dos 235 abrigos subterrâneos espalhados pela cidade. Segundo o porta-voz da prefeitura de Tel Aviv, Hillel Fertouk, a central de atendimento tem recebido 3.400 chamadas por dia, uma média cinco vezes maior do que a registrada normalmente. Segundo ele, as dúvidas mais freqüentes, além da localização dos bunkers, é saber onde conseguir as chaves que dão acesso aos abrigos. Abertos pela última vez em 2003, durante o ataque americano contra o governo de Saddam Hussein no Iraque, os abrigos são mantidos trancados para evitar a presença de mendigos e usuários de drogas.

¿ Não há o que temer. A prefeitura já verificou as condições de todos os refúgios e pequenos consertos foram feitos. Caso haja informações de inteligência do Exército dando conta de uma ameaça real contra a cidade, a unidade de proteção a civis do Exército nos dará um aviso prévio de até duas horas para que possamos destrancar todos os acessos imediatamente ¿ explicou Fertouk.

Para a analista de sistemas Galia Baldinger, de 25 anos, nem mesmo o bunker numa escola a cinco minutos de sua casa, no centro de Tel Aviv, serviu para diminuir a tensão. Assustada após declarações de fontes militares pedindo que os moradores da cidade estivessem atentos, Galia telefonou para a prefeitura para descobrir onde ficava o bunker mais próximo. Ao encontrar o local, descobriu que em caso de um ataque, não teria tempo de chegar ao abrigo e que as condições de manutenção do lugar tornariam impossível qualquer tentativa de proteção:

¿ Não estou em pânico, mas fiquei tensa. Com toda a imprensa pedindo atenção e fontes militares alertando contra o perigo, é impossível ficar alheio. É uma sensação nova, pois nunca estive numa guerra. Mudei-me de Jerusalém para Tel Aviv há seis meses e em Jerusalém as coisas são mais tranqüilas. Sempre há a sensação de que lá estamos seguros, pois os árabes não vão querer atacar uma cidade que é sagrada para eles também ¿ disse ela.