Título: Sanguessugas: até um BMW como propina
Autor: Alan Gripp
Fonte: O Globo, 21/07/2006, O País, p. 9

Empresário conta que parlamentares receberam ainda em viagens, hospedagens em flats e malas de dinheiro

BRASÍLIA. Carros de luxo como um BMW, viagens, hospedagens em flats e dinheiro - distribuído até em malas que circulavam pelo Congresso - foram algumas das formas de pagamento da máfia dos sanguessugas aos 105 parlamentares que teriam aderido ao esquema. As revelações foram feitas pelo empresário Luiz Antônio Vedoin, apontado como um dos principais chefes da organização, em depoimento à Justiça Federal, e divulgadas ontem pelo vice-presidente da CPI dos Sanguessugas, deputado Raul Jungmann (PPS-PE).

No depoimento, em poder da CPI, Vedoin contou com riqueza de detalhes como negociou e comprou de cada parlamentar emendas ao Orçamento que permitiram à organização superfaturar a venda de ambulâncias e outros equipamentos a prefeituras e ONGs. Na maioria dos casos, a propina paga correspondia a 10% do valor da emenda. Mas há casos como o de um bispo evangélico que teria recebido como pagamento um BMW.

O vice-presidente da CPI divulgou um levantamento feito a partir do depoimento, mostrando que 40 parlamentares teriam recebido em dinheiro vivo; 34 por meio de depósitos na conta de assessores; dez em sua própria conta corrente; cinco na conta de parentes (sendo três deles esposas dos congressistas); e outros cinco foram presenteados com carros e viagens. Segundo Jungmann, Vedoin não deixou claro quais as vantagens dadas aos onze restantes.

Jungmann disse ainda que o empresário entregou à Justiça documentos bancários que comprovariam os pagamentos feitos, direta ou indiretamente, a pelo menos 54 parlamentares. Não será possível comprovar o pagamento de propina aos 40 que teriam recebido em dinheiro vivo. A CPI verifica se há contra esse grupo outras provas que o incrimine, principalmente nas escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal.

Até o momento, apenas 57 parlamentares são oficialmente investigados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Não é possível precisar se entre eles estão os políticos que teriam recebido propina. Isso porque os pedidos de abertura desses inquéritos foram feitos pelo Ministério Público antes do depoimento do empresário, a maioria deles com base em escutas telefônicas feitas pela PF.

Para o vice-presidente da CPI, todos os parlamentares denunciados por Vedoin devem ser notificados e ter os seus nomes revelados.

- Todo brasileiro tem direito a conhecer esse documento histórico (o depoimento de Vedoin). É injusto que 57 já estejam nas ruas e os outros no anonimato. Tanto para o conhecimento do eleitor como também para eles próprios se defenderem - disse Jungmann.

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