Título: Varig com 4 aviões e ponte aérea
Autor: Érica Ribeiro
Fonte: O Globo, 21/07/2006, Economia, p. 27

Após comprar empresa por US$20 milhões, VarigLog cancela vôos e avisa que demitirá

AVarigLog sacramentou ontem a compra da Varig em um leilão em que apenas a ex-subsidiária da companhia foi habilitada. Horas depois de ser declarada a nova dona, anunciou a suspensão, até o dia 28, de todos os vôos nacionais e internacionais ainda em operação, com exceção da ponte aérea Rio-São Paulo entre os aeroportos Santos Dumont e Congonhas. A freqüência da ponte aérea será ampliada de dez para 36 vôos diários.

A ex-subsidiária pagou US$20 milhões (valor que desde o dia 21 de junho vem sendo depositado diariamente para manter a Varig em operação), mais US$485 milhões em investimentos na nova empresa e compromissos assumidos com a antiga Varig, que passa a ter a marca Nordeste Linhas Aéreas. A parte que foi vendida, a nova Varig, ficou com as rotas nacionais e internacionais, as marcas Varig e Rio Sul e passivos de bilhetes emitidos e do programa de milhagem Smiles. A Varig antiga mantém toda a dívida, de quase R$8 bilhões, e continua em recuperação judicial. A Fundação Ruben Berta (FRB), apesar de dona da Varig antiga, permanece impossibilitada pela Justiça de administrar a companhia.

Cooperativa tentou entrar na última hora

O leilão foi realizado no hangar da Varig no Santos Dumont - e curiosamente a venda foi concluída no dia do 133º aniversário de nascimento do pai da aviação. O pregão começou com mais uma empresa querendo entrar na disputa: a Cooperativa de Trabalho de Profissionais de Processamento de Dados e Informática (Cooperdata), de São Paulo. A tentativa foi frustrada porque a empresa não cumpriu as exigências do edital.

Marco Antônio Audi, sócio da Volo do Brasil - dona da VarigLog - disse que o número preciso de funcionários aproveitados na nova Varig ainda não foi decidido e dependerá do número de aeronaves e rotas. Segundo a presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Graziella Baggio, Audi disse que a empresa ficaria inicialmente com 13 a 14 aviões e 1.680 empregados dos cerca de dez mil - portanto, haverá demissões.

Audi acrescentou que, na audiência hoje na Corte de Falências de Nova York, a empresa pedirá mais prazo para proteção contra arresto de aeronaves por empresas de leasing. O objetivo é também negociar novos contratos para uso dos aviões parados por medida judicial. Perguntado se o presidente da Varig, Marcelo Bottini, continua na companhia, Audi adiantou que ele fica pelo menos até o fim da transição entre as empresas.

A nova Varig informou que a suspensão das rotas é o primeiro passo na estratégia de recuperação da companhia. A idéia é fazer um bom trabalho na ponte aérea e retomar gradativamente os vôos com a frota reformulada (após manutenção). Segundo a VarigLog, os passageiros que têm reservas e bilhetes emitidos para vôos domésticos ou internacionais cancelados serão acomodados em outras companhias, de acordo com o Plano de Contingência da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), em vigor desde 21 de junho. A Varig ainda mantinha vôos internacionais para Miami, Nova York, Aruba, Caracas, Santa Cruz de la Sierra, Buenos Aires, Santiago, Lima, Londres, Frankfurt e Copenhagen. No Brasil, além da rota Rio-São Paulo, a empresa voava para Salvador, Recife, Natal, Fernando de Noronha, Fortaleza, Belém, Macapá, Manaus, Brasília, Curitiba, Foz do Iguaçu, Porto Alegre e Florianópolis.

Segundo fontes da empresa, a nova Varig ficaria até o dia 28 com apenas quatro aviões. O primeiro destino retomado seria Brasília e depois, Porto Alegre, mas todos os vôos só voltariam a ser operados em um prazo mínimo de 30 dias. Ainda segundo a mesma fonte, o objetivo é concentrar os vôos inicialmente no mercado doméstico, com parcerias no mercado internacional com as empresas Lufthansa, TAP, Air Canada e United Airlines.

Entre os compromissos que a VarigLog - que comprou a Varig por meio da empresa Aéreo Transportes Aéreos - terá com a antiga empresa está a emissão de debêntures para as classes 1 (trabalhadores) e 2 (Aerus), no valor de R$100 milhões, com rendimento anual de R$4,2 milhões, conversíveis após dez anos em até 5% das ações da nova Varig; compra do passivo da Varig com o Smiles, no valor de R$70 milhões; e compra do passivo de bilhetes já emitidos, no total de R$245 milhões.

Para que a antiga Varig tenha fluxo de caixa, a nova empresa terá contratos de prestação de serviço com o Centro de Treinamento de Pilotos, com pagamento de R$1 milhão por ano em dez anos, e contrato de fretamento de uma aeronave da Euroatlantic por três anos, com R$5 milhões anuais. Além disso, pagará aluguel pelo uso de imóveis que também ficam na antiga Varig. Na nova Varig serão depositados US$75 milhões para as operações e mais US$75 milhões em 30 dias.

Esta foi a segunda tentativa de vender a Varig. Na primeira, um grupo de funcionários fez proposta, mas não conseguiu honrá-la. Ontem, o juiz da 8ª Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Rio, Luiz Roberto Ayoub, recebeu um agradecimento especial de Bottini, que também mencionou os funcionários, "gente que nos últimos meses investiu sua saúde, sua vida e seu salário".

Lap Chan, de jeans e camiseta, observava

O presidente da VarigLog, João Luis Bernes de Souza, anunciou aos funcionários o compromisso de fazer a empresa voltar a ser o que era. Os funcionários da companhia deixavam o hangar da empresa chorando, enquanto no sistema de som tocava a música "Canção da América". Sem participar das formalidades que envolveram a compra da Varig, o empresário Lap Chan, o principal negociador da proposta de compra da companhia, misturou-se entre pessoas que estavam na chamada área VIP e, de longe, vestindo camiseta preta e jeans, apenas observava.

Ontem, as ações da Varig tiveram a maior queda na Bolsa de Valores de São Paulo. Os papéis com direito a voto (ON) caíram 40,29%, cotados a R$4,89. Estas ações não eram negociadas desde 7 de junho. Já os papéis PN recuaram 32,71%, cotados a R$2,55. Segundo analistas, após a alta de 25,91% das ações PN na véspera, os investidores venderam os papéis para garantir o lucro.

COLABOROU Patricia Eloy

SUSPENSÃO DE VÔOS SURPREENDE O GOVERNO, na página 28