Título: UMA CIDADE DIVIDIDA ENTRE O PAVOR E A APREENSÃO
Autor:
Fonte: O Globo, 21/07/2006, O Mundo, p. 36
Zona sul xiita de Beirute é alvo de ataques, enquanto outros bairros têm mais segurança
BEIRUTE. Nem parece a mesma cidade. Enquanto a área sul de Beirute, onde se concentra a população xiita, é alvo de pesados bombardeios por parte da aviação militar de Israel, por ser uma das bases de operações do grupo radical Hezbollah, o restante da capital libanesa se mantém em sua maior parte como um espectador da guerra.
O contraste é claro. Nos bairros xiitas do sul - conhecidos pelo nome geral de Dahie - vivem meio milhão de pessoas e a destruição é onipresente, com o número de prédios derrubados pelas bombas e mísseis de Israel chegando às dezenas. As ruas vazias denunciam o medo da morte que pode chegar a qualquer momento vinda do céu. Muitos moradores também abandonaram suas casas e lojas e fugiram para as montanhas. Nessa área da capital libanesa - a mais pobre - a presença da polícia é escassa, já que a segurança fica a cargo dos milicianos do Hezbollah, que também coordena escolas, hospitais e centros de caridade.
Nas zonas central, norte e leste de Beirute, onde vivem muitos cristãos, a situação é de apreensão, mas o temor é apenas uma fração daquele sentido no sul xiita. Casais ainda passeiam de mãos dadas nas ruas, o lixo é recolhido pela limpeza municipal e podem-se encontrar lojas e restaurantes abertos cheios de fregueses. Táxis circulam pelas ruas, mas recusam-se se a levar qualquer passageiro para o Dahie.
Por conta dessa segurança, a cidade conta com refugiados internos, com muitos moradores xiitas da zona sul buscando abrigo em outros bairros de Beirute.
- Não sei quando poderei voltar para nossa casas - disse uma mulher abrigada com a família numa escola num bairro cristão.
Um míssil israelense lançado contra um caminhão no bairro cristão de Ashrafiyeh, no entanto, modificou a aparente sensação de segurança dos moradores. Após a explosão, dezenas de pessoas ligaram para a polícia, preocupadas ao observarem algum caminhão que consideravam suspeito nas redondezas de suas casas, temendo que o veículo atraísse novos ataques israelenses.