Título: Líbano ameaçado de invasão
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Fonte: O Globo, 21/07/2006, O Mundo, p. 36

Israel acena com ofensiva terrestre e adverte população a deixar área até 20km da fronteira

Soldados israelenses e militantes do grupo radical libanês Hezbollah entraram em combate ontem no sul do Líbano, pela segunda vez em dois dias e com relatos conflitantes de baixas dos dois lados. No nono dia de enfrentamento, o ministro da Defesa de Israel, Amir Peretz, disse que poderá haver uma ofensiva terrestre contra o país vizinho e os civis libaneses foram advertidos a abandonarem em 24 horas a área ao sul do Rio Litani, a cerca de 20 quilômetros da fronteira.

Após uma sangrenta quarta-feira, com 63 mortes no Líbano, o bombardeio israelense diminuiu ontem, mas foi retomado à noite em Beirute. O Vale do Bekaa e outras áreas do sul também sofreram ataques, mas o número de vítimas não foi divulgado, presumindo-se que tenha sido menor do que na véspera.

O combate terrestre ocorreu na localidade libanesa de Maroun al-Ras, de onde os militantes do Hezbollah vinham fazendo disparos de foguetes contra o vilarejo agrícola de Avivim. Forças israelenses penetraram cerca de 1,5 quilômetro dentro de território libanês para destruir as casamatas dos radicais xiitas. A incursão teve apoio de helicópteros e artilharia, mas os soldados israelenses se retiraram sob fogo inimigo. A rede qatariana de TV al-Jazeera informou que quatro soldados israelenses morreram no enfrentamento, mas Israel admitiu apenas dois mortos e seis feridos.

Peres questiona número de mortos

Já o número de baixas do lado do Hezbollah é ainda mais contraditório, dependendo da fonte: o Hezbollah admite um morto, enquanto fontes militares israelenses citadas pelo jornal "The Jerusalem Post" falam em 30 a 40. Mais tarde, dois helicópteros Apache colidiram em Israel, deixando pelo menos seis feridos. Segundo a al-Jazeera, houve quatro mortes.

Por sua vez, o vice-premier de Israel, Shimon Peres, pôs em dúvida o número de civis mortos no Líbano, divulgado pelas autoridades do país, que estaria próximo de 300. Peres, porém, não deu sua estimativa.

Choques tão perto da fronteira mostram que o Hezbollah ainda age com relativa liberdade muito próximo de território israelense mesmo após uma semana de intensos bombardeios. Ontem foram disparados cerca de 40 foguetes contra Israel, sem que houvesse vítimas ou dano material. Foram atingidas Safed, Tiberíades e Amiad, além de outras áreas. Peretz comentou a possibilidade de uma invasão.

- Não temos intenção de ocupar o Líbano, mas também não temos intenção de fugir das medidas militares necessárias - comentou ele ao visitar áreas bombardeadas no norte de Israel.

Por sua vez, o xeque Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, declarou numa entrevista que a afirmação de autoridades israelenses de já terem destruído 50% da capacidade bélica do grupo é fantasiosa. Ele assegurou que o Hezbollah tem absorvido os ataques e prometeu surpresas.

- Toda essa conversa de que 50% de nossa infra-estrutura foram danificados é besteira - afirmou.

Na Faixa de Gaza, quatro palestinos morreram em bombardeio aéreo e choques com forças de Israel. Uma das vítimas foi o adolescente Mohamed Mahra, de 16 anos, atingido por disparos no campo de refugiados de al-Maghazi. Segundo fontes israelenses, ele seria militante de um grupo radical. Oito pessoas ficaram feridas no ataque ao campo. Ontem morreu também uma jovem de 14 anos gravemente ferida no bombardeio de anteontem. Em outro ataque, a Marinha de Israel bombardeou uma importante estrada litorânea de Gaza.

Não temos intenção de ocupar o Líbano, mas também não fugiremos das medidas militares necessárias

AMIR PERETZ

Ministro da Defesa de Israel

Toda essa conversa de que 50% de nossa infra-estrutura foi danificada é uma besteira

HASSAN NASRALLAH