Título: PF: esquema envolvia redistribuição de inquéritos para acerto com advogados
Autor: Antonio Werneck e Ana Claudia Costa
Fonte: O Globo, 22/07/2006, O País, p. 4
Ação criminosa facilitava entrada de contrabando no Aeroporto Tom Jobim
Segundo a Polícia Federal, o esquema criminoso desvendado ontem pela Operação Cerol se instalou a partir de promessa de empresários e advogados de oferecer vantagens a policiais federais no Rio, alguns deles com cargos de chefia. O esquema consistia em redistribuir aos envolvidos determinados inquéritos de interesse de um grupo de advogados. O que permitiria, na opinião dos responsáveis pelas investigações, posteriores acertos com os empresários por meio de investigações propositalmente deficientes. Em alguns casos, os policiais pediam o arquivamento dos inquéritos em benefícios de empresários, dos advogados e de pessoas físicas.
Ainda segundo a Polícia Federal, os principais beneficiados do esquema investigados no período eram clientes do escritório do advogado Michel Assef, no qual o mais atuante era o advogado Monclair Eugênio Gama (um dos presos), e os sócios da empresa de vigilância Vigban, Renato Paula de Almeida e Jorge Delduque, que também foram presos na Operação Cerol.
Segundo o delegado Delci Carlos Teixeira, todos os inquéritos que passaram pelas mãos dos delegados investigados serão revistos. Delci acredita que cada delegado tenha atuado em 600 inquéritos. A conta daria aproximadamente 3.600 inquéritos que devem passar por revisão.
¿ Estamos iniciando uma correição em todos os inquéritos em que os delegados suspeitos atuaram. Além disso, eles responderão a inquéritos administrativos que serão instaurados e comandados por uma comissão formada por três delegados de fora do Rio, todos de classe especial ¿ disse Delci.
José Milton se diz inocente
O superintendente explicou que, durante as investigações, foi descoberto um suposto esquema de entrada ilegal de mercadoria estrangeira no Aeroporto Internacional Tom Jobim. Um dos suspeitos é o delegado Mauro Montenegro.
¿ Descobrimos um esquema para facilitar a entrada de contrabando no Rio ¿ disse Delci, sem dar detalhes.
O grupo de controle externo de atividades policiais da Procuradoria da República no Rio de Janeiro vinha monitorando os acusados por escutas telefônicas há mais de um ano. Segundo eles, a forma como a quadrilha agia era muito difícil de ser percebida. Os procuradores Marcelo Freire, Fábio Seghese e Orlando Cunha disseram que a segunda etapa da investigação será o de análise de todos os documentos que foram encontrados nas residências e escritórios. Agora, os procuradores terão um prazo de cinco dias prorrogáveis por mais cinco, para apurar e encaminhar um relatório definitivo à Polícia Federal.
O procurador Orlando Cunha explicou que, mesmo que os acusados sejam libertados pela Justiça, os delegados, o agente e o escrivão envolvidos poderão ser afastados administrativamente pela própria superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro.
Agentes federais também cumpriram mandado de busca e apreensão na sede da Cervejaria Itaipava, em Petrópolis. Um dos presos, o empresário Paulo Henrique Villela Pedras, é diretor da companhia e sócio do empresário Walter Farias na Cervejaria Itaipava. Walter foi preso em 2005 durante a Operação Cevada, que investigou na cervejaria Schincariol um esquema de sonegação fiscal que incluía o uso de laranjas em empresas de fachada, de placas frias de caminhões para despistar fiscalização, pagamento de propina a fiscais e formação de caixa dois. Em cinco anos, os acusados teriam deixado de pagar R$1 bilhão em impostos.
Paulo Henrique Pedras ainda acumula o cargo de presidente do sindicato da Cervejas e Bebidas em Geral de Petrópolis, que fica na sede da Federação da Industria do Rio de Janeiro (Firjan). Foi no Jockey Club, onde ocupava o cargo de vice-presidente, que Paulo Henrique promoveu a posse do delgado federal José Milton Rodrigues e de pelo menos mais dois ex-superintendentes da PF do Rio.
José Milton Rodrigues, que estava passando por uma bateria de exames no Pro-Cardíaco, em Botafogo, depois de ser levado às pressas numa ambulância da superintendência da PF, disse que sua prisão foi orquestrada por setores do Ministério Público Federal e da própria Polícia Federal e sem qualquer embasamento legal:
¿ Na verdade estou sendo vítima de conclusões precipitadas, sem qualquer prova no suposto envolvimento com qualquer ato que implique desvio de conduta. Tenho convicção de minha inocência.
Ainda segundo o ex-superintendente, ele está tranquilo e sabe que não cometeu ato que pudesse macular sua ilibada carreira na PF.
¿ Nenhum inquérito deixou de ser instaurado por influência de minha parte. Não há nenhuma prova do que está sendo afirmado pelos responsáveis pela investigação ¿ disse José Milton.