Título: EMPRESÁRIO AFIRMA QUE PAGOU PROPINA A PETISTA
Autor: Alan Gripp
Fonte: O Globo, 22/07/2006, O País, p. 11
Acusações foram em depoimento no qual Vedoin incrimina mais de cem parlamentares, após negociar delação
BRASÍLIA. O empresário Luiz Antônio Trevisan Vedoin, apontado como um dos chefes da máfia dos sanguessugas, disse à Justiça Federal ter pago propina ao petista José Airton Cirilo, integrante do diretório nacional do PT e candidato derrotado do partido ao governo do Ceará, em 2002. No depoimento, em poder da CPI dos Sanguessugas, Vedoin acusou Cirilo de ter agido como intermediário do Ministério da Saúde na liberação de recursos federais para a compra de ambulâncias superfaturadas. O petista negou as acusações e disse que as denúncias atendem a interesses ¿escusos e orquestrados¿.
As acusações foram feitas no depoimento em que Vedoin, após negociar a delação premiada, incrimina mais de cem parlamentares, que, segundo ele, teriam recebido algum tipo de vantagem para apresentar emendas ao Orçamento. A CPI, no entanto, ainda não teve tempo de investigar as informações dadas pelo empresário.
Petista teria pedido ajuda para receber dívida
Segundo integrantes da CPI, Vedoin contou que Cirilo o procurou para ajudá-lo a receber uma dívida do Ministério da Saúde com a Planam, principal empresa do esquema, referente a compra de 130 ambulâncias. Em troca, teria pedido uma comissão de 5% do valor total. Com base nos valores médios cobrados pela empresa por cada ambulância, a CPI estima que a suposta propina possa chegar a R$400 mil.
Segundo deputados que tiveram acesso ao depoimento, Vedoin contou ter procurado no início de 2003 o recém-empossado ministro da Saúde, Humberto Costa. Queria receber o dinheiro pela venda dos veículos, fechada no fim do governo Fernando Henrique e entregues ainda em 2002. Depois de receber uma resposta negativa ¿ o presidente Lula acabara de baixar um decreto cancelando o pagamento de empenhos feitos no governo anterior ¿, Vedoin disse ter sido procurado por emissários de Cirilo com a solução de seu problema.
Vedoin contou que foi abordado por José Caubi Diniz e Raimundo Lacerda Filho, sobrinho de Cirilo, durante um encontro de prefeitos, em Brasília. Segundo ele, a propina teria sido paga aos dois em depósitos bancários e em dinheiro vivo. Procurado pelo GLOBO, o Ministério da Saúde não informou se a dívida com a Planam foi paga nem como.
Reportagem da revista ¿Época¿, que circula neste fim de semana, diz que liberação do dinheiro pelo Ministério da Saúde foi precedida de uma reunião entre Vedoin e Cirilo em um hotel de Brasília. De lá, relata a reportagem, os dois teriam seguido para o gabinete do ministro Humberto Costa. Na ante-sala, Vedoin teria aguardado uma conversa entre Cirilo e o ministro. Na saída, o empresário foi informado que os recursos seriam liberados.
¿Época¿ afirma ainda que eram comuns os encontros entre Airton e Humberto Costa. Um deles, segundo a revista, teria acontecido em julho de 2003, num hotel de Fortaleza. Vedoin afirmou que, no mesmo período, reuniu-se com prefeitos apresentados a ele por Cirilo. Nos encontros teriam sido acertadas fraudes em licitações.
¿Me recordo bem da data da conversa por causa do recibo de um pagamento de R$22.431,38 a uma agência de turismo, para bancar os gastos do chefe de gabinete do ministro e de mais seis pessoas ligadas a ele¿, contou o dono da Planam, em trecho do depoimento reproduzido pela revista.
Cirilo negou ter tratado de liberação de recursos
Vedoin também acusou Cirilo de intermediar negócios da Planam nos estados do Nordeste. O empresário afirmou que o governador do Piauí, Wellington Dias (PT), teria participado das negociações para a liberação de R$14 milhões do Orçamento da União para a compra de ambulâncias no estado. O negócio, no entanto, não se concretizou porque Vedoin foi preso pela Operação Sanguessuga, da Polícia Federal.
Em nota, Cirilo negou ontem todas as acusações. Afirmou que, por ser uma figura pública, recebe vários pedidos para serem encaminhados ao governo federal, mas que nunca recebeu favorecimentos pela atuação. Cirilo negou que tenha tratado da liberação de recursos federais.
¿ O próprio governador Wellington Dias esclareceu que fez, neste caso específico, convênio direto com o ministério da Saúde, via pregão eletrônico ¿ disse.
Cirilo informou que seu sobrinho é filiado ao PSDB e que é funcionário do gabinete de um senador tucano, cujo nome não informou. Por fim, disse que as denúncias têm objetivo político.
¿ Nenhum parlamentar do PT foi denunciado e querem de toda forma arrastar nosso partido para o atoleiro do caso Sanguessuga, quiçá para atingir a iminente reeleição do presidente Lula.