Título: AVALANCHE DE CANDIDATOS É ESTRATÉGIA CONTRA CLÁUSULA DE BARREIRA
Autor: Maria Lima e Gerson Camarotti
Fonte: O Globo, 23/07/2006, O País, p. 10
Pequenos partidos entram na disputa para tentar sobreviver às exigências da legislação eleitoral
BRASÍLIA. A entrada em vigor a partir da eleições deste ano da regra da cláusula de barreira, que exige de cada legenda o mínimo de 5% dos votos nacionais para deputado federal, espalhados em pelo menos nove estados, a oportunidade de usar o horário eleitoral gratuito e o surgimento de novos partidos provocaram uma avalanche de candidatos a governador nas eleições deste ano.
Para disputar os 27 governos estaduais, 208 candidatos registraram suas candidaturas em todo país. Juntas, suas campanhas podem custar até R$942 milhões. Se os partidos não alcançarem os percentuais previstos pela regra, perdem o direito de ter um líder nas casas do Congresso, de receber os recursos do Fundo Partidário, e de exibir os programas gratuitos no rádio e na televisão fora do período eleitoral.
Só em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, os candidatos a governador são 16. O recém-criado PSOL, por exemplo, lançou nomes ¿ a maioria políticos totalmente desconhecidos ¿ em 19 estados.
Das mais de duas centenas de políticos que disputam o cargo de governador, menos de um terço ¿ dois por estado, em geral ¿ tem chances de vitória ou são competitivos. Mas como todos terão assegurados pelo menos 30 segundos na propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, três vezes por semana, a estratégia dos partidos é usar os candidatos às eleições majoritárias para divulgar a legenda e seus outros concorrentes aos demais cargos.
A candidata do PSOL à Presidência da República, senadora Heloísa Helena (AL), diz que a estratégia de seu partido de lançar o máximo de candidatos aos governos estaduais não foi motivada pela entrada em vigência da regra da cláusula de barreira. Além dos 30 segundos no horário eleitoral gratuito para divulgar a nova legenda, Heloísa Helena explica que o partido está cumprindo sua obrigação de oferecer uma alternativa aos seus eleitores.
¿ Havia estados onde eu tinha de 18% ou 19% das intenções de votos (na disputa presidencial) e o partido não tinha candidato ao governo estadual. Por isso decidimos apresentar um abrigo para a esquerda democrática. Mas não será um caminho fácil ¿ reconhece a candidata do PSOL.
Candidato do PDT a presidente, o senador Cristovam Buarque insiste que entrou na disputa para divulgar suas propostas sobre a educação e que vai até o fim, apesar de não obter mais de 1% das intenções de voto. Mas seu partido é outro ameaçado de perder, por exemplo, o direito a ter um líder na Câmara caso não atinja os percentuais de votação estipulados pela cláusula de barreira.
No maior colégio eleitoral do país, São Paulo, nada menos do que 16 candidatos disputam o comando do Palácio dos Bandeirantes. Com exceção do PMDB, do PSDB, do PT, do PSOL e do PTN, que fizeram coligações, os demais partidos concorrem com chapas puras e com políticos desconhecidos da maioria do eleitorado.
No Rio Grande do Sul, há dez concorrentes. No Maranhão e em Pernambuco nove candidatos estão na briga pelo cargo de governador em cada um desses estados. No Mato Grosso, eles são oito, o mesmo número registrado em Santa Catarina. Nos estados onde a concorrência é menor, há cinco candidatos. É o caso do Amazonas, do Ceará, do Mato Grosso do Sul e do Tocantins.
A proliferação de candidatos não foi contida nem mesmo em pequenos estados da federação como Alagoas, com oito concorrentes; Roraima que tem sete, e Rondônia e Sergipe, com seis cada. Mesmo número de candidatos encontrado em outros estados, incluindo Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país. No Rio de Janeiro e no Paraná, há 11 nomes na disputa pelo governo de cada estado ¿ só perdem para São Paulo.