Título: POLÍTICOS TENTAM EXPLICAR O ENRIQUECIMENTO
Autor: Dimmi Amora e Maiá Menezes
Fonte: O Globo, 23/07/2006, O País, p. 12
Justificativas vão de empréstimos a boa sorte; maioria nega que bens sejam incompatíveis com renda
Empréstimo, doação, erro de assessores ou sorte. Com essas explicações, os deputados tentam justificar o alto crescimento do patrimônio nos últimos quatro anos de mandato. A maioria afirma que o aumento é compatível com seus rendimentos. Esse é o caso do deputado deputado Jorge Picciani (PMDB). Em nota, ele afirmou que o crescimento de seu patrimônio é compatível com seus rendimentos ¿como constatou meticulosa investigação feita durante mais de um ano pelo Ministério Público Estadual e que concluiu ¿ por decisão unânime do Conselho Superior daquele órgão ¿ que os bens do deputado guardam perfeita compatibilidade com seus rendimentos, que não se resumem aos recebidos como parlamentar¿.
A deputada Andréia Zito (PSDB), que está no segundo mandato e concorre agora à Câmara dos Deputados, atribui a um empréstimo de R$800 mil o incremento de 715% em seus bens. A deputada, filha do ex-prefeito de Caxias José Zito comprou dois imóveis, mas não revelou quem lhe emprestou o dinheiro.
¿ Apesar do aumento bruto no meu patrimônio, eu estou endividada. Não tenho autorização para dizer quem me emprestou o dinheiro, mas está tudo declarado. Reconheço que é uma mudança grotesca de patamar, mas na realidade, sem o empréstimo, a variação foi pequena ¿ disse a deputada, que classifica sua vida como simples.
Brazão diz que lucrou com revenda de gás
O deputado Domingos Brazão (PMDB), que aumentou o patrimônio em 186% em quatro anos, afirma que os bons ventos que atingiram o mercado de revenda de gás aqueceram suas finanças. Dono de postos de gasolina, Brazão afirma que está no ramo do comércio há 24 anos e diz que já trabalhou em agência de automóvel, com revenda de prata, em indústria de torrefação de café e como office-boy. Ele não soube precisar desde quando começou a revender gás.
¿ O mercado (de gás) está aquecidíssimo no Rio. Tenho comércio há 24 anos. Agora, pegamos a explosão dos postos de gás ¿ disse Brazão.
O deputado Gilberto Silva (PMDB) atribui o crescimento de 371% a um erro de assessores seus. Ele afirma que a declaração apresentada em 2002, onde constava o valor de R$186 mil estava distorcida. Era, segundo ele, a lista de bens que ele costumava apresentar a imobiliárias, quando se dispunha a ser fiador de amigos. O deputado, que é contador do Ministério da Fazenda, admite que não enviou a lista de bens que declarou à Receita, como manda a lei.
¿ Não enriqueci ilicitamente. A primeira declaração que apresentei à Alerj, em 2003, é bem próxima desta, de 2006 ¿ afirmou.
O deputado Ricardo Abrão (PP) informou que recebeu, em 2003, R$423 mil de seu pai, o prefeito de Nilópolis, Farid Abraão:
¿ Além disso, sempre tive negócios fora da política, como um posto de gasolina.
Glauco Lopes (PSDB) tinha um patrimônio de R$75 mil que passou para R$441 mil em quatro anos. Filho do ex-prefeito de Macaé, Silvio Lopes, ele disse que antes de entrar na política tinha uma empresa de comunicação, e adquiriu outras duas, uma de turismo e outra de engenharia, que rendem mais a ele do que a Alerj.
¿ Com estes rendimentos das empresas, comprei imóveis, alguns em sociedade com meus irmãos ¿ contou.
Marco Figueiredo (PSC) passou de um patrimônio de R$245 mil para R$534 mil. Ele afirmou que o crescimento é pela compra de imóveis em conjunto com sua mulher, que é empresária, e que guarda relação com seu patrimônio.
¿ Fui ao Ministério Público espontaneamente para explicar o crescimento do meu patrimônio na legislatura passada (que era R$15,3 mil em 1998), levando meus extratos bancários ¿ disse Marco.
Ely Patrício (PSDC), que tinha R$33 mil em 1998, R$270 mil em 2002 e R$504 mil em 2006, afirmou que vendeu um imóvel, que se valorizou no período, e guardou o dinheiro. Segundo ele, está tudo explicado em sua declaração para a Receita.
Graça Pereira (PFL) passou de um patrimônio de R$531 mil em 2002 para R$1,4 milhão este ano. Seus novos bens são imóveis comprados em conjunto com o marido, o vereador do Rio Jorge Pereira, adquiridos com rendimentos das empresas da família. Coronel Rodrigues (PSC) tinha dois imóveis, um carro e R$72 mil. Ele manteve os imóveis e o carro e acumulou recursos em dinheiro. Tudo somado chega a R$416 mil.
O deputado Coronel Jairo (PSC) tinha patrimônio de R$27 mil em 2002, constituído de investimentos e agora tem R$164 mil também na maioria em investimentos. Ele e Brazão são dois dos 11 investigados no inquérito aberto pela PF. Dr. Ogando (PSC) passou de R$163 mil em 2002 para R$362 mil em 2006. O crescimento é quase todo em seus investimentos em dinheiro. Alessandro Calazans (PMN) disse que não falaria sobre o aumento de seu patrimônio. Marcos Abraão (PSL), que declarava em 2002 ter R$20 mil e passou para R$177 mil com a aquisição de três imóveis, não retornou as ligações.
Deputada recebeu cinco imóveis da mãe
A deputada Alice Tamborindeguy (PSDB), que aumentou o patrimônio de R$1,3 milhão em 2002 para R$2,043 em 2006, explica que, neste período, recebeu, em doação, cinco apartamentos da mãe. Ela também foi beneficiária do espólio de uma tia. O deputado estadual Gilberto Palmares (PT), cujo patrimônio cresceu de R$115 mil para R$519 mil, apresentou documento que mostra que recebeu R$200 mil de indenização da Embratel, em 2003, quando rescindiu contrato de trabalho com a empresa.
Pedro Augusto (PMDB) declarava ter R$169 mil há quatro anos e agora tem R$276 mil de patrimônio. O deputado também tem rendimentos como apresentador de um programa de rádio e como sócio de duas empresas. O deputado Flávio Bolsonaro (PP), que tinha um carro de R$25 mil em 2002, comprou seu primeiro imóvel no valor de R$350 mil na atual legislatura. Georgete Vidor (PPS) comprou um imóvel com a indenização recebida após ser demitida do Clube de Regatas Flamengo, o que fez seu patrimônio aumentar de R$139 mil para R$477 mil.