Título: AS FORÇAS DA DESORDEM
Autor:
Fonte: O Globo, 23/07/2006, O Mundo, p. 43
TEL AVIV. Uma pequena notícia no ¿Jerusalem Post¿ outro dia chamou minha atenção. Dizia que a companhia telefônica israelense, Bezeq, estava instalando conexões de alta velocidade em abrigos antibombas para que israelenses possam surfar na web enquanto esperam por ataques do Hezbollah.
Vi a história de duas formas. Uma, como símbolo da capacidade israelense de se adaptar a qualquer tipo de guerra. Outra, como uma expressão inconsciente do que as pessoas começam a sentir: esta não é uma guerra comum, e provavelmente não terminará logo. Num momento em que a maioria dos Estados árabes se reconciliou com Israel e sua disputa agora é sobre onde as fronteiras deveriam estar, a milícia xiita do Hezbollah, apoiada pelo Irã, armada com 12 mil foguetes, diz que fronteiras são irrelevantes.
Por isso vejo amigos apoiando totalmente as ações do seu governo. Ao mesmo tempo, encontro um sentimento de ansiedade de que Israel está encarando no Hezbollah um inimigo que está determinado a transformar este conflito numa guerra religiosa ¿ a partir de uma guerra sobre território ¿ e deseja fazê-lo de uma forma que ameaça não apenas Israel mas os fundamentos da estabilidade global.
O Hezbollah construiu um Estado dentro de um Estado no Líbano, e insistiu em lançar seu próprio ataque contra Israel que expôs todo o Líbano à retaliação. Violou a fronteira internacional sacramentada pela ONU.
Não é apenas outra guerra árabe-israelense. É sobre alguns dos mais básicos fundamentos da ordem internacional ¿ fronteiras e soberania.
O Líbano não foi capaz de produzir uma coerência interna para controlar o Hezbollah. O único modo de essa guerra chegar a alguma conclusão estável é se O Mundo da Ordem ¿ e eu não falo apenas em ¿Ocidente¿, mas em países como Rússia, China, Índia, Egito, Jordânia e Arábia Saudita ¿ unir-se numa força internacional que possa escoltar o Exército libanês à fronteira com Israel e permanecer à mão para protegê-lo contra o Hezbollah.
Não falo de uma força de paz da ONU. Mas de uma força internacional como a que libertou o Kosovo.
Nada faria as forças da desordem retrocederem no Líbano mais do que O Mundo da Ordem ajudando a estender o poder do governo democraticamente eleito do país a suas fronteiras com Israel.
Infelizmente, em parte devido ao ressentimento e ciúme de China, Rússia e Europa em relação aos EUA, e em parte devido à tola abordagem de Bush que disse que o poder unilateral da América era mais importante do que uma ação legítima de um consenso global, as forças globais da ordem hoje não estão completamente unidas.
É hora de O Mundo da Ordem agir. Esta não é a luta de Israel sozinho ¿ e se alguém quer realmente ver uma resposta ¿desproporcional¿ israelense é só deixar Israel lutando sozinho.
As forças da desordem ¿ Hezbollah, al-Qaeda, Irã ¿ são uma tsunami política que faz necessária uma frente unida para derrotá-la. E essa frente necessita ser liderada pelos líderes americanos que compreendam que nosso poder é mais eficaz quando é legitimado por um consenso global e imerso numa coalizão global.
THOMAS FRIEDMAN é colunista do New York Times