Título: O QUE ACONTECERÁ DAQUI POR DIANTE?
Autor:
Fonte: O Globo, 23/07/2006, O Mundo, p. 43

A arrogância do Hezbollah criou uma oportunidade para Israel. Desde a retirada israelense do Líbano, o grupo se regozijou na ilusão de que derrotara Israel. Ele começou a se vender como a única força disposta e capaz de enfrentar o país. O Hezbollah perdeu o respeito pelo poder israelense e começou a pintar Israel como incapaz de sustentar um conflito prolongado. O xeque Nasrallah permitiu que um culto à personalidade se desenvolvesse a seu redor e cada vez mais parece que os altos escalões do Hezbollah começaram a acreditar em sua própria propaganda. Duvido que esperassem que a reação israelense fosse tão rápida, extensa e destrutiva como tem sido.

O Hezbollah cometeu um erro de cálculo estratégico e não percebeu as mudanças estratégicas mais amplas. O tema regional mais importante hoje é a questão nuclear iraniana, não o Hamas ou a questão palestina. Se o Hezbollah tivesse entendido isso, teria se agachado até que o Irã precisasse dele numa megacrise com os EUA. Nesse ponto, suas ameaças a Israel teriam sido somadas à capacidade bélica do Irã e talvez os EUA pensassem duas vezes.

De qualquer modo, é interesse de Israel e dos EUA lidar com a ameaça agora, e não depois, no meio de uma crise mais perigosa sobre os planos nucleares do Irã. Por isso uma guerra agora para debilitar o Hezbollah é um interesse compartilhado dos EUA e de Israel, o que significa que Israel pode fazer a guerra sem muitos constrangimentos. O Hezbollah se acha agora gastando todos os seus meios militares que deveriam servir a um propósito maior do que libertar alguns prisioneiros libaneses ou marcar pontos de propaganda. Em suma, o Hezbollah errou na mão, e Israel está aproveitando o erro.

Pôr fim à crise obviamente não é um fim em si mesmo. O objetivo deve ser reduzir o Hezbollah a um fator irrisório nos cálculos maiores. Levará alguns anos para reverter os anos de negligência, e o Hezbollah não deixará que o halo sobre sua cabeça seja destruído sem luta. Mas Israel tem permissão dos EUA para fazer as coisas a seu ritmo agora, e seria uma tolice não usá-la. De qualquer modo, Israel não tem escolha. O islamismo preencheu o espaço antes ocupado pelo nacionalismo árabe no tempo de Nasser: uma ideologia de rejeição, resistência e falsa promessa de um Oriente Médio sem Israel. A retirada de Israel do Líbano e de Gaza ¿ qualquer que sejam seus méritos ¿ só alimentou este islamismo com um folclore de sacrifício e vitória. Os islamistas têm uma narrativa e acham que o mundo se conforma a ela.

Este é o objetivo aqui também e vários eventos podem ameaçar esse cenário. Não é tanto o que o Hezbollah poderia fazer, mas os erros que Israel poderia cometer. Os problemas principais mais óbvios são demasiados ¿danos colaterais¿ ou a reocupação de parte do Líbano. Qualquer um deles poderia minar a legitimidade de Israel, o apoio americano e deixar os israelenses isolados. Uma vez que este é um governo novo liderado por um premier novo, é impossível predizer se eles saberão como lidar com as reviravoltas inesperadas inevitáveis numa guerra.

MARTIN KRAMER é pesquisador do Instituto para Políticas de Oriente Médio de Washington