Título: NAUFRÁGIO NA OMC
Autor: Eliane Oliveira
Fonte: O Globo, 25/07/2006, Economia, p. 21
Impasse agrícola faz organização suspender por tempo indeterminado negociações comerciais
De nada adiantou o posicionamento político do G-8 (grupo dos sete países mais ricos do mundo mais a Rússia), na semana passada, para que as negociações da Rodada de Doha fossem concluídas até o fim de agosto. Reunidos ontem em Genebra, na Suíça, os principais associados à Organização Mundial do Comércio (OMC) ¿ Brasil, EUA, Austrália, Índia, Japão e União Européia (UE) ¿ decidiram suspender as conversas por tempo indeterminado, o que significa mais um fracasso na tentativa de se firmar um acordo de liberalização do comércio ¿ considerado essencial para o crescimento global e retirada de milhões de pessoas da pobreza.
Embora as negociações venham se arrastando há cinco anos sem avanços significativos, esta é a primeira vez que o processo é formalmente suspenso. Com o multilateralismo em xeque e, diante da impossibilidade de um acordo, a suspensão acabou sendo recomendada pelo próprio secretário-geral da OMC, Pascal Lamy. O clima de frustração foi resumido pelo ministro de Comércio e Indústria indiano, Kamal Nath, ao anunciar a interrupção das negociações. Indagado sobre a retomada das negociações, ele disse:
¿ Algo entre meses e anos.
Para os europeus e os países do G-20, liderados por Brasil e Índia, os EUA são responsáveis pelo fracasso, por terem se recusado a reduzir os subsídios agrícolas domésticos, estimados em cerca de US$20 bilhões por ano. Os EUA foram acusados de terem sido os únicos a não apresentarem uma oferta melhorada sobre a mesa.
¿ Não vou cair na tentação de buscar culpados, mas devo reconhecer que a área em que estávamos mais atrasados era claramente o respaldo doméstico (aos subsídios agrícolas) ¿ disse o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim.
Brasil e Europa culpam os EUA
Menos diplomática, a ministra de Comércio da França, Christine Lagarde, disse que a ¿intransigência dos EUA¿ causou o fracasso.
¿ Fico decepcionada que a intransigência americana nos leve a este beco sem saída e que isso aniquile os esforços feitos desde outubro ¿ disse a ministra, referindo-se à série de reuniões realizadas desde o fim do ano passado, para tentar destravar as negociações. ¿ Agora temos que considerar as alternativas, em outras palavras, negociações multilaterais de natureza regional.
O comissário comercial da UE, Peter Mandelson, acusou os EUA de se converterem em um muro, ao se negarem a oferecer cortes mais profundos em seus subsídios agrícolas.
¿ Certamente a nação mais rica e poderosa do mundo, com o mais alto estilo de vida, pode se dar ao luxo de ceder, além de tomar ¿ disse Mandelson.
Pascal Lamy afirmou que a retomada das conversações a um pacto mundial de livre comércio levará um tempo e exigirá que os países redefinam suas posições.
¿ Tal fracasso causa perplexidade, para dizer o mínimo. Há somente uma explicação possível para um colapso tão rápido e categórico: não havia vontade política. A OMC passa por sua crise mais grave ¿ acrescentou Amorim, prevendo o aumento do número de disputas na OMC.
A representante de Comércio da Casa Branca, Susan Schwab, disse que apenas os Estados Unidos melhoraram a proposta.
¿ Chamamos Lamy no canto e perguntamos: onde está a flexibilidade dos outros? Ele concordou que, enquanto os EUA apresentaram flexibilidades, não houve, novamente, esforço suficiente (dos outros) para fechar um acordo ¿ disse Schwab.
Segundo uma fonte do Itamaraty, o Brasil deve agora avançar no acordo de livre comércio entre Mercosul e UE e ampliar os tratados bilaterais com Índia, China, África do Sul e outros emergentes.
(*) Com agências internacionais