Título: Batalha diplomática à frente
Autor:
Fonte: O Globo, 24/07/2006, O Mundo, p. 20
TEL AVIV. Com a experiência de quem já foi três vezes ministro da Defesa, o veterano estrategista Moshe Arens diz que Israel errou ao permitir que o Hezbollah se armasse na fronteira. Para ele, o país terá de pagar pelo erro sozinho, pois nem mesmo a Europa estará disposta a lidar com o grupo fundamentalista islâmico no sul libanês.
O recrutamento de milhares de reservistas pode ser um sinal de que Israel voltará a ocupar o Líbano por tempo indeterminado?
MOSHE ARENS: A convocação de reservistas ocorreu porque se descobriu que as bases do Hezbollah no sul do Líbano são mais fortes do que se imaginava. A Aeronáutica compreendeu que não pode destruir a infra-estrutura do grupo sozinha, é preciso uma invasão terrestre. Num combate como este não se pode falar em tempo, o Exército vai ficar lá até cumprir a missão, que é afastar o Hezbollah da fronteira com Israel e destruir seu poder de fogo. Nos últimos anos o Hezbollah tornou-se o soldado iraniano contra Israel e nós somos culpados por este conflito. Tudo começou com um grande erro há seis anos e o governo libanês também precisa pagar um preço pelo fracasso em conter o grupo.
O senhor se refere à retirada das tropas israelenses em território libanês em maio de 2000?
ARENS: Claro. Tudo o que acontece hoje poderia ter sido evitado há seis anos. Devíamos ter exigido que o Exército libanês tomasse as posições deixadas por Israel. Decidimos não intervir e o Hezbollah sacramentou sua soberania na região. Quando o ex-primeiro-ministro Ehud Barak decidiu deixar o Líbano, ameaçou o líder do grupo, xeque Hassan Nasrallah, de que caso houvesse qualquer agressão contra Israel, a resposta seria dura. O Hezbollah testou e provocou a força israelense durante todo este período. Houve lançamentos de foguetes Katiusha, rapto de soldados e confrontos esporádicos sem que o governo israelense reagisse. O Hezbollah recebeu esta apatia como uma prova de fraqueza. Com o apoio do Irã e da Síria, ele se armou, cresceu e hoje se aproveita disso.
O premier Ehud Olmert admitiu ontem apoiar uma força de paz liderada pela Europa como um passo para o cessar-fogo na fronteira. O senhor acredita nesta possibilidade?
ARENS: De jeito nenhum. Em primeiro lugar, Israel tradicionalmente resolve seus problemas sozinho, sem a ajuda de intermediários. Além disso, os europeus podem tentar intervir como mediadores de uma possível equipe de negociações, mas não no campo de batalha. Com diversos países ainda se recuperando do impacto da guerra no Iraque e os estragos provocados na imagem da Europa junto aos países árabes, parece pouco provável que o Velho Continente vá querer se complicar com os guerrilheiros do Hezbollah. Creio que as declarações são apenas parte de uma estratégia diplomática. Apesar do apoio dos EUA, além da batalha no front, Israel tem ainda uma outra batalha junto à comunidade internacional para justificar a ação militar em território libanês.