Título: ATAQUE À LEI HUMANITÁRIA
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Fonte: O Globo, 24/07/2006, O Mundo, p. 20

ONU denuncia violações no Líbano. Israel aceitaria tropas da Otan

BEIRUTE

AOrganização das Nações Unidas (ONU) classificou ontem os ataques de Israel ao Líbano de ¿resposta desproporcional¿ que claramente viola ¿as leis humanitárias internacionais¿. A análise foi feita pelo enviado especial à região, o chefe dos serviços de assistência humanitária, Jan Egeland, que chegou ontem a Beirute e se disse horrorizado com a destruição.

Num dia de intensos combates, o Hezbollah lançou 90 foguetes contra alvos israelenses. O Exército de Israel, por sua vez, perpetrou diversos ataques, alguns deles a civis, e já controlaria três cidades libanesas próximas à fronteira. Numa tentativa de solução diplomática, o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, reuniu-se com os ministros das Relações Exteriores de Alemanha e França e disse que concordaria em estudar a hipótese de envio ao Líbano de uma força militar formada por tropas de países da União Européia. O ministro da Defesa, Amir Peretz, afirmou que Israel aceitaria uma força comandada pela Otan para garantir a paz na fronteira.

Em 12 dias de conflito, pelo menos 364 libaneses foram mortos, a maioria civis. Do lado israelense, os mortos somam 37 ¿ 20 deles militares.

¿ Trata-se de uma destruição, imóvel após imóvel, de várias zonas residenciais ¿ apontou Jan Egeland, depois de rodar pela cidade. ¿ Diria que se trata de uso excessivo de força numa região onde moram muitos cidadãos.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) calcula que 600 mil pessoas tenham deixado suas casas em razão dos bombardeios.

¿ Esse número vai aumentar enormemente, uma vez que a população do sul do Líbano está impedida de partir ¿ assegurou o enviado da ONU.

Com o bloqueio de Israel a portos, aeroportos e postos de fronteira, muitas pessoas não conseguem deixar a região, entre elas diversos brasileiros. E há dificuldade de distribuição de ajuda humanitária.

¿ Não podemos encaminhar ajuda ao país em quantidade, nem distribuí-la além de alguns pontos ¿ afirmou Egeland, lembrando que os comboios da ONU devem começar a chegar dentro de alguns dias. ¿ Precisamos de acesso seguro e, até agora, Israel não está nos dando.

Condoleezza chega hoje a Israel

O governo israelense assegurou ontem que suspenderá o bloqueio ao porto de Beirute para permitir a entrada de ajuda internacional. Mas como estradas, pontes e caminhões estão entre os alvos mais freqüentes de Israel nos últimos dias, ninguém sabe ainda como os artigos serão transportados pelo país.

Ontem, Israel voltou a bombardear alvos civis, matando a fotógrafa libanesa Layal Nejim, de 23 anos, e três das 16 pessoas que tentavam escapar do conflito em um microônibus. Pelo menos outros 15 veículos civis foram atingidos em estradas. A cidade portuária de Sidon, onde mais de 40 mil refugiados de regiões vizinhas estão concentrados, também foi atingida. Uma mesquita foi destruída.

¿ Trata-se de uma guerra e, numa guerra, algumas vezes ocorrem erros ¿ afirmou o general Shuki Shachar, chefe do Comando Norte do Exército de Israel, frisando que é particularmente difícil evitar a morte de civis quando se combate uma milícia que se mistura à população local.

Segundo o general, três cidades libanesas próximas à fronteira já estariam sob controle israelense ¿ Maroun al-Ras, Marwahin e Aita al-Shaab. O Exército não divulgou quantos homens teria no Líbano, mas já seriam mais de mil. Ainda assim, o ministro da Defesa, Amir Peretz, voltou a dizer ontem que não se trata de uma invasão, mas sim de operações visando alvos específicos.

O Hezbollah, por sua vez, lançou 90 foguetes, matando duas pessoas e ferindo mais de 70 em Haifa, norte de Israel. Nos confrontos em Maroun al-Ras as forças do Hezbollah atingiram ainda um observador desarmado da ONU, o italiano Roberto Ponzo, que foi levado de helicóptero a um hospital em Haifa.

Em busca de uma saída negociada para a crise, os ministros das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, e da França, Philippe Douste-Blazy, estiveram reunidos ontem com o primeiro-ministro israelense. Steinmeier afirmou que a comunidade internacional deve encontrar uma forma de pôr fim ao conflito na região e se disse preocupado com o número de civis mortos.

¿ O governo alemão sabe muito bem quem deu início a essa escalada ¿ afirmou o ministro alemão, referindo-se ao ataque do Hezbollah a soldados israelenses em 12 de julho. ¿ Mas, ao mesmo tempo, há civis do lado palestino e libanês. É preciso garantir que haverá uma solução.

A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, chega hoje a Israel, onde se reunirá com a ministra das Relações Exteriores, Tzipi Livni. Está prevista também uma reunião com Ehmud Olmert amanhã, antes da partida de Condoleezza para a Cisjordânia, onde se encontrará com o líder palestino Mahmoud Abbas.