Título: `O ESTADO TEM QUE COBRIR O DÉFICIT DA PREVIDÊNCIA¿
Autor: Cristiane Jungblut
Fonte: O Globo, 28/07/2006, O País, p. 10

Em entrevista como candidato, Lula diz que o sistema é ¿motivo de orgulho¿, por ser uma forma de inclusão social

BRASÍLIA. Numa entrevista de 30 minutos à rádio CBN, a primeira a uma emissora como candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que o Tesouro Nacional tem que arcar com o déficit da Previdência, hoje superior a R$30 bilhões. Segundo o presidente, essa foi a opção da Constituição de 1988, ao incluir no sistema milhões de pessoas que não contribuíram. Lula não se comprometeu a fazer uma nova reforma no setor, dizendo apenas que essa é uma preocupação recorrente dos governantes, e chegou a afirmar que o atual sistema é ¿motivo de orgulho¿ por ser uma forma de inclusão social:

¿ Isso deve ser motivo de orgulho para o Brasil, porque não há país no mundo com sistema de inclusão social como foi a inclusão dos trabalhadores rurais na Previdência Social.

Na entrevista ao vivo ao jornalista Heródoto Barbeiro, o presidente previu um crescimento da economia de 5% a 6%, disse que vai manter a política de superávit fiscal e que as taxas de juros continuarão caindo gradativamente. A seguir, os principais trechos da entrevista:

PREVIDÊNCIA E DÉFICIT: ¿O déficit da Previdência Social é real, existe, mas precisamos ter em conta que esse déficit foi programado pela Constituição de 1988, quando incluiu seis milhões de trabalhadores rurais na Previdência. Foi programado quando a gente criou o Estatuto do Idoso, aprovou a Loas (Lei Orgânica de Assistência Social). Essas pessoas passaram a ter um benefício que deveria ser do Tesouro Nacional, e não da Previdência. Então, isso é contabilizado como déficit da Previdência quando a responsabilidade é do Tesouro, porque são milhões e milhões de pessoas sendo beneficiadas. Acho isso muito importante porque é uma forma de fazer política de distribuição de renda. Estamos com crescimento de emprego e ele vai obviamente permitir que a gente diminua o déficit da Previdência¿.

REFORMA DA PREVIDÊNCIA E ORGULHO: ¿Penso que a cada 15, 20 anos, os governantes do mundo inteiro terão que pensar um novo modelo de Previdência. A Previdência tinha muito dinheiro. Foram feitos muitos prédios com o dinheiro da Previdência: Brasília foi construída em parte com dinheiro da Previdência, e sabe lá Deus onde mais foi utilizado o dinheiro. Se levássemos em conta apenas os que estão trabalhando, a Previdência não teria o déficit que tem. O déficit da Previdência é um déficit do Estado. O Estado tem que cobrir. Quando aprovamos a inclusão de milhões de pessoas que não tinham contribuído, ficava claro que era o Tesouro que tinha que arcar com essa responsabilidade. Por isso foi criado o Cofins, para ajudar a pagar. O que precisamos ter em conta é o seguinte: não jogar mais sacrifício nas costas dos trabalhadores e encontrar solução de compatibilizar os benefícios que criamos com a forma de arrecadação do Estado brasileiro. Isso deve ser motivo de orgulho para o Brasil, porque não há nenhum país do mundo com sistema de inclusão social como foi a inclusão dos trabalhadores rurais na Previdência Social¿.

REFORMA TRIBUTÁRIA: ¿Fiz a reforma tributária em 2003. Foi votada a parte pertinente ao governo federal. Mas não foi votada a parte pertinente aos estados, que está no Congresso até hoje. Acontece que a oposição não quer votar e alguns governadores não querem votar porque querem manter a guerra fiscal acesa neste país. O problema da reforma tributária é que cada brasileiro, cada governador, cada prefeito tem a sua reforma tributária¿.

PROGRAMA DE GOVERNO: ¿Os partidos que compõem minha base política estão trabalhando o plano de governo. Quem está na oposição tem o direito e o dever de escrever as projeções do que vai fazer. Quem já é presidente precisa dizer ao povo o que fez, o que está fazendo e o que vai acontecer no próximo período¿.

REELEIÇÃO E ECONOMIA: ¿Qual a diferença desta reeleição para a que houve em 1998? É que em 1998, quando o presidente foi reeleito, ele foi pego de surpresa por uma guinada no mercado que mudou o câmbio. Agora estamos numa situação de estabilidade. Não vamos correr risco. O time está ganhando e a perspectiva é dar uma goleada. E dar uma goleada boa, porque as coisas estão sólidas. Fizemos uma opção de fazer com que a taxa de juros caia gradativamente. Vamos reduzindo até atingir um padrão que dê ao Brasil as mesmas condições do mundo inteiro¿.

REVOLUÇÃO NA ECONOMIA: ¿O que fizemos nesses 44 meses foi uma grande revolução em se tratando de macroeconomia. Há algum tempo, quando os EUA espirravam, nós pegávamos pneumonia. Hoje os EUA espirram e nós falamos `saúde!¿.¿

PROMESSAS: ¿Quando a gente senta na cadeira de presidente tem que tratar o país como quando senta numa cadeira na frente dos seus filhos e da sua mulher. Não pode mentir, não pode fazer falsa promessa. Precisa dizer o que pode fazer¿.

DEZ MILHÕES DE EMPREGOS: ¿Sabe aquelas coisas que a versão vale mais que a verdade? Se pegar o programa de governo que fiz em 2002, dizia que o Brasil precisava criar dez milhões de empregos. Não tem lá, em nenhum momento, eu dizendo que ia criar. Fazem 44 meses que o emprego cresce todo santo mês. À medida que a economia cresça mais, vai crescer mais o emprego. São quase 6 milhões de empregos formais¿.

CRESCIMENTO E SOCIAL: ¿É manter uma forte política de inclusão social, favorecendo a parte mais necessitada da sociedade. Hoje, o Brasil está numa condição totalmente favorável. Não há momento na história econômica do Brasil em que a gente tenha uma combinação de fatores tão positivos como agora para que o Brasil possa crescer a 5%, 6% (ao ano) de forma sustentável, durante grande período¿.

BRASIL E O G8: ¿Eu, por exemplo, que já tive o privilégio de ser convidado para três reuniões do G8 (os sete países mais ricos mais a Rússia), espero que um dia o Brasil não seja convidado, espero que um dia faça parte dos oito países mais ricos do mundo¿.

DÍVIDA PÚBLICA: ¿A dívida pública não é um problema. Ela diminuiu de 58% para 50% (do PIB) e conseguimos desdolarizar nossa dívida. Tínhamos quase 40% da dívida pública dolarizada e hoje não temos praticamente nada dolarizado. Estamos com uma dívida tranqüila. Queremos trabalhar para que diminua. E vamos manter o superávit fiscal, para que a gente possa apontar para os credores e pessoas que têm dinheiro aplicado que vamos arcar com nossas responsabilidades. E vamos combinar essa seriedade na política de responsabilidade fiscal com uma forte política social¿.

http://www.oglobo.com.br/pais