Título: POBREZA ASSOMBRA SEGUNDO MANDATO DE GARCÍA
Autor: Janaina Figueiredo
Fonte: O Globo, 28/07/2006, O Mundo / Ciencia e Vida, p. 35

Presidente reeleito do Peru tem como principal desafio manter economia crescendo com melhor distribuição de renda

BUENOS AIRES. Alan García assume hoje, pela segunda vez, a Presidência do Peru. Depois de ter derrotado o ex-militar e líder nacionalista Ollanta Humala nas urnas, García iniciará seu segundo mandato (ele governou de 1985 a 1990) com o objetivo de resolver o grande dilema peruano: como crescer e, ao mesmo tempo, melhorar as condições de vida de mais da metade dos habitantes, que vivem abaixo da linha da pobreza.

Depois da traumática transição entre os governos de Alberto Fujimori (1990-2000) e Alejandro Toledo (2001-2006), comandada pelo ex-presidente Valentin Paniagua (2000-2001), o Peru será cenário hoje de uma troca de governo que reflete um clima de estabilidade política. Ontem, Toledo pediu aos peruanos que respaldem o novo presidente.

¿ Todos devemos fortalecer as instituições, darmos ao novo governo o benefício da dúvida, não sejamos preconceituosos ¿ declarou o presidente, que hoje entregará o cargo a García.

Gabinete com gente de vários partidos e técnicos

Depois de ter sido o chefe de Estado mais impopular da América Latina, Toledo deixará o poder com 47% de aprovação, segundo pesquisa divulgada ontem pela Companhia Peruana de Estudos de Opinião Pública e Mercado. A maioria dos peruanos considera que Toledo conseguiu consolidar o processo de recuperação da economia. Os aspectos questionados de seu governo são os casos de corrupção, sobretudo envolvendo familiares do presidente.

García receberá, portanto, um país que cresce, mas que não distribui de forma equilibrada as riquezas que produz. Para resolver este dilema, o novo presidente convocou um Gabinete integrado por membros de vários partidos e, também, técnicos independentes, como o ministro da Economia, Luiz Carranza, considerado um homem do setor financeiro.

De um total de 15 secretários de Estado, seis serão mulheres, informou o novo presidente ontem. Ciente da necessidade de buscar acordos com todos os setores políticos, García optou por algumas figuras emblemáticas da oposição, como Rafael Rey, novo ministro da Produção, desvinculado recentemente do movimento Unidade Nacional, comandado pela ex-candidata Lourdes Flores.

Na visão de analistas, o presidente terá alguns meses de tranqüilidade, em grande medida pela disposição de opositores de colaborar com o novo governo.

¿ Humala quer fortalecer seu partido, não vai criar conflitos a curto prazo. E os demais opositores querem ajudar, sobretudo no Congresso ¿ explicou o cientista político Rolando Ames, da Universidade Católica.

Partido de García não é majoritário no Congresso

O Partido Aprista Peruano (Apra), de García, terá 35 congressistas. Já o movimento União pelo Peru (UPP), de Humala, terá 45 cadeiras.

¿ O mais provável é que a bancada do UPP termine rachando. Para o governo não será complicado negociar acordos no Congresso ¿ afirmou o analista peruano.

Para Carlos Reyna, também da Universidade Católica, García optou por um gabinete de centro-direita, que terá dificuldades para resolver os problemas sociais do Peru.

¿ Muitos dos novos ministros representam setores do poder econômico. García precisava dar um recado aos que temiam que seu governo alterasse a estabilidade econômica e fiscal obtida durante a gestão de Toledo. Vamos ver se isso não acaba atrapalhando seu programa social ¿ disse Reyna.

Ontem, depois de anunciar o Gabinete, García deixou claro que sua prioridade será reduzir a pobreza.

¿ A composição do Gabinete reflete os critérios fundamentais da campanha, buscando que todos trabalhem tendo como foco fundamental o combate à pobreza ¿ declarou García.