Título: NO CULTO A HARIRI, SAUDADES DA PAZ
Autor: Ricardo Galhardo
Fonte: O Globo, 29/07/2006, O Mundo, p. 40
Um ano após a morte, presença de ex-premier é cada vez maior entre libaneses
BEIRUTE. Se o objetivo dos assassinos de Hafik Hariri era se livrar do ex-primeiro-ministro libanês com o atentado a bomba que o matou em fevereiro de 2005, o tiro saiu pela culatra. O rosto rechonchudo, sobrancelhas grossas e bigode espesso de Hariri, um muçulmano sunita típico, está em todos os cantos de Beirute, até nos bairros xiitas, drusos e cristãos. Postes, muros, árvores, igrejas, mesquitas, carros, casas, lojas e lanchonetes estampam a figura do ex-primeiro-ministro, transformado em mártir do equilíbrio político e desenvolvimento econômico do país. Em tempo de guerra, sua lembrança se torna ainda mais presente.
¿ Ao contrário da grande maioria dos políticos libaneses das últimas décadas, Hariri trabalhava para todos, sem distinção de religião. Ele tinha um projeto de desenvolvimento social e econômico para o país e não um objetivo político pessoal. É isso que difere os estadistas dos políticos comuns ¿ disse o comerciante xiita Ali Bahamoud, que tem uma foto de Hariri pendurada sobre o caixa de sua loja de roupas, em Owzaei.
O local onde Hariri foi enterrado, na Praça dos Mártires, ao lado da imponente mesquita Mohamad Al Amin, no bonito centro histórico de Beirute, reconstruído por ele próprio, recebe diariamente romarias de admiradores, que passam por ali a caminho do trabalho ou de casa para prestar homenagem. Dificilmente o local fica vazio. Até mesmo os túmulos dos sete seguranças que morreram com ele no acidente e foram enterrados no mesmo local viraram pontos de peregrinação.
Hariri deveria ter sido enterrado no interior da mesquita. Mas no dia do funeral havia tantas pessoas que o esquife simplesmente não pôde chegar ao local e o ex-primeiro-ministro foi sepultado na praça.