Título: RENDA DE APOSENTADOS, PILAR ATÉ DAS CASAS RICAS
Autor: Daniel Engelbrecht e Luiz Ernesto Magalhaes
Fonte: O Globo, 30/07/2006, Rio, p. 25
Região Metropolitana tem 1/4 das famílias sustentado por inativos; proporção chega a 41% entre as mais abastadas
Luiz Glória em casa com a mulher e o filho de 45 anos desempregado: realidade de muitas famílias
Desempregado há três meses e sem condições de sustentar uma casa, o consultor em recursos humanos Luiz Henrique Tavares de Azevedo, de 45 anos, divorciado e com uma filha adolescente, precisou voltar a morar com os pais, na Ilha do Governador. Ele sobrevive agora com a ajuda do pai, o contador aposentado Luiz Glória de Azevedo, de 70 anos. O drama vivido por Luiz Henrique é comum a muitas outras famílias no Rio. O estado, que já teve a mais baixa taxa de desemprego do país no início da década de 90, hoje tem a quarta maior, segundo o diagnóstico do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), feito a pedido da Associação Comercial do Rio (ACRJ). Na contramão do desenvolvimento, a participação de aposentadorias e pensões na renda das famílias metropolitanas ¿ realidade dos grotões do Nordeste ¿ também dobrou desde o início da década de 80. Em 1981, aposentadorias e pensões representavam 15,41% da renda das famílias. Em 2003, a participação subiu para 29,22%.
Para o pesquisador André Urani, coordenador do estudo, as aposentadorias e pensões vêm funcionando como um amortecedor, amenizando a queda da renda das famílias.
¿ É graças a elas que a diminuição da renda domiciliar per capita não foi tão forte assim, apesar da retração econômica. O problema é que aposentadorias e pensões têm prazo de validade. Uma hora esse amortecedor não vai funcionar mais ¿ alerta.
Desemprego atinge principalmente os jovens
Se comparada à média nacional ou à Região Metropolitana de São Paulo, a proporção de famílias sustentadas por inativos no Grande Rio é elevada. Ao todo, 26,41% das famílias da Região Metropolitana do Rio têm como principal fonte de renda aposentadorias e pensões, contra 21,09% na Grande São Paulo e 19,64% no Brasil, diz o estudo, com base em dados do IBGE. Entre as mais ricas, a proporção é maior. Nada menos que 37,08% das famílias ricas da Região Metropolitana do Rio são chefiadas por inativos (21,44% na Grande São Paulo e 23,03% no Brasil). Tomando-se como referência o 1% de famílias mais ricas da Região Metropolitana do Rio, o percentual sobe para 41,73% (contra 21,09% em São Paulo e 24,26% no Brasil).
¿ A nossa elite vive do passado, tem pouco interesse no futuro. É preciso virar este jogo ¿ diz Urani.
Uma das explicações para o fato de tantas famílias apoiarem-se na renda proveniente de aposentadorias e pensões é a alta taxa de desemprego na Região Metropolitana e no estado, superior à média nacional. A taxa de desemprego na Região Metropolitana do Rio estava em 11,8% em 2004 e, no estado, em 11,3%, enquanto a média brasileira era de 9%. Somente dois estados ¿ Amazonas e Amapá ¿ e o Distrito Federal tiveram desempenho pior que o Rio.
A situação é particularmente preocupante na população mais jovem, de 15 a 24 anos. Entre 1992 e 2004, a taxa de desemprego nesta faixa saltou de 13,7% para 24,6%. Luana Santos Alves, de 18 anos, é um dos milhares de jovens em busca de um emprego com carteira assinada. Ela mora no Rio desde os 5 anos, quando se mudou da Bahia com a mãe, também desempregada, e cinco irmãos.
¿ Meu emprego anterior foi de empregada doméstica, sem carteira assinada e sem dia certo para receber. Também já fui vendedora, sem carteira assinada ¿ conta ela, desempregada há cinco meses.