Título: Esquina 2010
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 30/07/2006, O GLOBO, p. 2

Há mais que ressentimento no apoio do ex-presidente Itamar Franco à candidatura Geraldo Alckmin, que tanto parece ter incomodado o presidente Lula. Com este movimento, ficou mais próxima do governador de Minas, Aécio Neves, a candidatura presidencial do PSDB em 2010: para perder ou para ganhar, Alckmin já é mais credor de Aécio do que do paulista José Serra.

Mineiros não fazem política falando, mas por sinais. Itamar negou de público que tivesse exigido de Alckmin, em troca de seu apoio, o compromisso de apoiar as emendas que acabam com a reeleição e de não disputá-la, de todo modo, caso seja eleito.

Mas sua conversa com o candidato tucano começou com um aviso:

¿ Preciso lhe dizer que Minas tem um projeto presidencial para 2010, com Aécio. Estou nele.

O tucano captou o sinal:

¿ Não posso avançar neste tema da reeleição agora mas acho que em quatro anos pode-se fazer muita coisa. Não se pode é perder um só dia!

Coube ao próprio Aécio mudar o rumo da conversa, mas em sua entrevista Itamar não negou a vinculação entre seu apoio e a reciprocidade do paulista em 2010.

¿ Isso não foi negociado. Foi apenas dito a ele, evidentemente que com delicadeza e com educação.

Dito isso, o resto foi lenha em Lula, que passou recibo ao dizer anteontem que Itamar, aos 76 anos, pode dizer o que quiser. Alckmin foi aconselhado a tomar as dores do aliado, acusando Lula de ter preconceito contra idosos. Advertido, Lula voltou de Lima com uma desculpa: quis dizer que Itamar, do alto de sua experiência, é livre para fazer suas escolhas. Mas para isso não precisava ter mencionado a idade.

Voltemos aos créditos de Aécio junto a Alckmin, que hoje tem nele um dos esteios de sua candidatura. Se ele ganhar, dificilmente escapará da mosca da reeleição a que todos sucumbem, mesmo dizendo-se contrário à reeleição. Covas, Lula e o próprio Aécio sucumbiram. Se perder, terá que escolher entre Serra e Aécio. O que ficou implícito no movimento que levou ao apoio de Itamar Franco foi o apoio a Minas em 2010.

Mas Aécio pode tornar-se também o ponto de convergência tão desejado por segmentos do PSDB e do PT. Lula, se for reeleito, não terá candidato à sua sucessão em 2010. O PT não terá tempo para construir outro nome. Teria o do senador Aloizio Mercadante se este se elegesse governador de São Paulo, o que hoje é pouco provável. Mas mesmo não tendo candidato, Lula neste caso será o grande eleitor de 2010. Se a economia tiver crescido, se o país tiver avançado mais e ultrapassado o abismo ético de hoje, ele terá grande influência na escolha do sucessor não-petista, que pode ser Aécio. Estes argumentos já foram apresentados ao governador através de um interlocutor comum. Mas por ora ele ficará com seu partido, fará tudo o que puder por Alckmin, desmentindo tucanos e pefelistas que suspeitaram de sua lealdade e engajamento.