Título: CESSAR-FOGO IMEDIATO DEVE SER PRIORIDADE
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 30/07/2006, O Mundo, p. 47
WASHINGTON. A viagem da secretária de Estado Condoleezza Rice a Líbano, Israel e Roma foi um exercício de graça, bravura e, para meu pesar, diplomacia equivocada. Especialmente decepcionante foi o fato de ela resistir a todas as sugestões de que deveria vir primeiro uma negociação de cessar-fogo imediato entre as partes envolvidas.
Na viagem, ela repetidamente insistiu num cessar-fogo ligado a uma solução permanente e sustentável. Tal solução só é alcançável após negociações envolvendo múltiplas partes. Nesse meio tempo, civis continuam a morrer, infra-estrutura preciosa é destruída e a frágil democracia libanesa continua a erodir.
Minha experiência na região reforça minha crença de que a curto prazo deveríamos reforçar nossos esforços em deter as mortes. Duas vezes durante os meus quatro anos como secretário de Estado, enfrentamos situações parecidas com a de hoje. Duas vezes, a pedido de Israel, ajudamos a acabar com o banho de sangue.
Em junho de 1993, Israel respondeu aos ataques do Hezbollah com uma operação que resultou na expulsão de 250 mil civis do sul do Líbano. Após vários dias de bombardeio, o primeiro-ministro israelense, Yitzhak Rabin, pediu-me para usar contatos com a Síria a fim de buscar ajuda contra as hostilidades. Após vários dias de negociações urgentes, um acordo foi alcançado. Nunca soubemos exatamente o que a Síria fez, mas o Hezbollah respondeu às suas diretrizes.
Em abril de 1996, quando o Hezbollah lançou novos ataques, Israel reagiu com a Operação Vinhas da Ira, fazendo 400 mil pessoas fugirem do sul do Líbano. Bombas israelenses atingiram por engano um campo de refugiados da ONU matando cerca de cem civis.
Shimon Peres, que se tornou primeiro-ministro após a morte de Rabin, pediu ajuda. Nós nos lançamos numa viagem de oito dias a Damasco, Beirute e Jerusalém, que produziu um acordo pondo fim às hostilidades. Até semana passada, esse acordo havia sobrevivido por dez anos.
O que esses episódios nos dizem?
Primeiro, que, como em 1996, um cessar-fogo imediato deve ter prioridade, com as negociações sobre termos a longo prazo vindo a seguir. Conseguir um cessar-fogo já é difícil o suficiente sem sobrecarregar as negociações iniciais com a busca por soluções permanentes.
Segundo, se o objetivo é um cessar-fogo, os Estados Unidos têm um papel indispensável a desempenhar. Uma sucessão de líderes israelenses se voltou para nós ao concluir que as retaliações aos ataques do Hezbollah estavam sendo contraproducentes. Israel não acredita plenamente em ninguém mais para negociar em seu nome.
Finalmente, a Síria deve ser um participante crítico em qualquer acordo de cessar-fogo, como foi em 1993 e 1996. Embora não tenha mais tropas no Líbano, os suprimentos do Hezbollah passam pelo coração da Síria e alguns líderes da guerrilha moram em Damasco, dando ao país mais influência sobre o Hezbollah do que qualquer outra nação, com exceção do Irã. A Síria convidou a um diálogo direto com os EUA e, embora as relações tenham se deteriorado nos últimos anos, não podemos nos dar ao luxo de tratar o país com desdém diplomático. Como as situações com a Coréia do Norte e com o Irã confirmam, recusar a conversar com quem não gostamos é uma receita para frustração e fracasso.
Cada vez que os Estados Unidos dão sinal verde a mais violência israelense, nossa reputação afunda um pouco mais. A relutância de aliados próximos no Oriente Médio a receberem Condoleezza esta semana que passou comprova este fato.
É hora de os EUA irem adiante com a autoridade e o equilíbrio que o momento requer.
WARREN CHRISTOPHER foi secretário de Estado americano de 1993 a 1997 e escreveu este artigo para o ¿Washington Post¿