Título: A perda repentina da inocência
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 30/07/2006, O Mundo, p. 47

Conflito faz de crianças árabes e israelenses suas principais vítimas

Os adultos já se habituaram ao pavoroso estrondo dos bombardeios e ao tremor provocado pelos impactos dos projéteis durante os angustiantes momentos em que, impotentes, não têm outra saída a não ser aguardar as conseqüências da intolerância mútua. Já as crianças, tanto israelenses quanto árabes, perdem primeiro a liberdade das ruas. E, aos poucos, também a inocência.

Estrategistas e guerreiros profissionais, aqueles que usam fardas e os que cobrem o rosto com uma máscara negra, usam uma expressão tão perversa quanto fria para classificar essas vítimas. São rotuladas tecnicamente como ¿danos colaterais¿ ¿ o que na prática significa ¿inocentes úteis à causa¿, de um lado e de outro.

Resta aos pais amaldiçoar os inimigos e inventar formas de evitar um trauma mais profundo. Alguns apelam à fantasia para aliviar o pavor. Como Shlomo Siboni, 45 anos, major da reserva do Exército israelense. Ele disse à filha, Talia, de 2 anos, que os mísseis são ovos que despencam do céu.

Menores são um terço dos mortos

Quando foguetes Katiusha, disparados pelo Hezbollah, começaram a atingir o bairro onde a família reside em Nahariya, Talia gritou apavorada:

¿ Vamos para dentro. Os ovos estão quebrando, os ovos estão quebrando. Isso me assusta!

Greg Myre, repórter do ¿New York Times¿, estava com os Siboni e presenciou a cena:

¿ Por enquanto Talia parece aceitar essa idéia, ainda que periodicamente ela pergunte: ¿Como é que os ovos voam?¿ ¿ contou Myre.

Um levantamento feito pela ONU mostrou que as crianças são metade das pouco mais de 800 mil pessoas desalojadas na região do atual conflito, e pouco mais de um terço dos mortos até dois dias atrás.

¿ Nós estamos tentando aliviar ao máximo possível, os sintomas e efeitos da guerra comuns em muitas crianças nessas circunstâncias: depressão e alienação ¿ disse Ola Attayeh, uma psicóloga voluntária.

Em vez de brincar, as crianças agora procuram se esconder. As ruas se transformaram em campos de batalha; os sonhos em pesadelo. As circunstâncias as transformaram em crianças de guerra. Como Ali Ballout, 16 anos, que buscou abrigo num refúgio improvisado numa escola em Abey, no sul do Líbano. Ele vinha de Srifa, o vilarejo onde morava:

¿ A minha família ainda está enterrada sob os escombros de nossa casa e cães perdidos fazem dos cadáveres a sua refeição diária, porque os israelenses não permitem que ambulâncias ou equipes de resgate cheguem lá para retirar os corpos ¿ contou.

Segundo Jasmine Whitbread, executiva-chefe da ONG Save the Children, cresce a cada dia o drama de jovens tanto no Líbano quanto na Faixa de Gaza e em Israel. Nas áreas mais pobres, o trauma da guerra é um peso adicional à desnutrição, à falta de água potável e de eletricidade.

¿ Em Israel o governo tem sistemas excelentes de socorro. Por isso a nossa tarefa tem sido maior no Líbano e em Gaza, embora tenhamos também equipes de apoio psicológico cuidando de crianças em Nazareth (Israel).

Iffat Zeidan, médica que vem trabalhando com os refugiados, contou que a maioria das crianças que atende está extremamente traumatizada:

¿ Elas têm um medo enorme do escuro, e nos pedem velas para ajudá-las a passar a noite no caso de haver cortes de eletricidade.

Roger Rosenblatt, que visitou zonas de conflito em Israel, Palestina, Líbano, Irlanda, Camboja e Vietnã, colhendo informações para o seu livro ¿Children of War¿ (Crianças de Guerra), disse que enquanto os adultos tentam controlar seus sentimentos em relação à morte, as crianças encaram o assunto de uma forma menos racional:

¿ Elas não consideram a morte como parte contínua da vida. Para uma criança, a morte é arquiinimiga da vida, uma calamidade absoluta. É o começo do nada, uma ausência prolongada, e toda a dor de reconhecer essa fato duplica, redobra a sensação.

Ausências como as que sente Mahnoud Srour, menino de 8 anos, cujo rosto está irreconhecível depois das queimaduras sofridas devido ao míssil israelense que atingiu o carro da família nas proximidades de Mansuri, sul Líbano. O garoto ainda não sabia mas o pai morreu no ataque. Um tio, que fazia parte do grupo, também.

¿ Os corpos foram deixados no carro, em chamas ¿ contou Anthony Shadid, correspondente de guerra do ¿Washington Post¿, que esteve com os Srour num hospital em Tiro.

A mãe e uma irmã de oito meses de Mahnoud se salvaram:

¿ Onde está o papai? ¿ perguntava o menino, insistentemente.

¿ Não se preocupe com ele ¿ respondia sempre a mãe, procurando engolir os soluços.

Emocionado, o jornalista narrou:

¿ O dia terminou em Tiro como tinha começado: com um desesperado grito de pesar.

E assim a guerra continua num cenário onde ainda ressoam as palavras do poema escrito anos atrás, durante uma sangrenta etapa anterior deste conflito interminável, por Hadara Minster, então uma menina de 14 anos. São versos nascidos da dor constante numa área que, ironicamente, é chamada de Terra Santa, e onde os adversários costumam apregoar que estão seguindo desígnios divinos:

¿Se há um Deus, como muitos dizem, então como é que pode crianças pequenas serem mortas? Como é que pode, uma garota que não sabia sequer o que é um tiro, ser morta por terroristas? E... quem sabe se isso aconteceu com a ajuda de Deus?¿