Título: Tentativa de sobrevivência
Autor: SEYED JAFAR HASHEMI
Fonte: O Globo, 31/07/2006, Opinião, p. 7

Odevastador ataque de Israel, com o objetivo prolongado e amplo que abrange quase todo o Líbano, demonstra que, ao contrário do que se imaginava, esta ação militar não tem nada a ver com uma operação de resposta à resistência islâmica que capturou soldados israelitas. As condições exigidas por Israel para cessar fogo evidenciam que a captura de dois soldados era somente um pretexto para se começar um conflito. Outros motivos mostram que a decisão de executar a ação militar contra o Líbano fora planejada e premeditada e existia toda a preparação para efetuá-la, esperando o momento oportuno.

Essa reação do regime sionista foi efetuada dentro dos quadros da política geral americana e não tem nenhuma ligação com as duas operações de captura, assim como de outras vezes. A atitude dos países do Ocidente perante os atos de Israel no Líbano, de certa forma, mostrou que eles mais tiveram consideração pelas condições exigidas por Israel do que se preocuparam com a causa da Palestina ou o destino do Líbano, ou o ferimento dos sentimentos de milhões de muçulmanos, ou a opinião pública mundial. O Ocidente somente pediu que não houvesse exagero, porque isso não coincidia com seus interesses. Atacar as instalações de infra-estrutura, destruir zonas residenciais no Líbano e praticamente fazer uma guerra parcial contra o Hezbollah demonstra a intenção de Israel de começar uma guerra plena contra o Líbano. Não há dúvida de que todo o Líbano está incluído num plano já começado no Iraque e na Palestina, e que almeja outros países da região e do mundo árabe.

A intermediação internacional nos dias iniciais do conflito, sem dar atenção à situação na Palestina, errou mais por subordinar o Líbano. Passada a primeira, nas próximas segundas das ações militares de Israel contra o Líbano certamente as condições dos intermediários políticos vão se alterar, independentemente da situação, somente pensando num cessar-fogo. Se não for assim, o Exército israelense terá que começar operações por via terrestre, no Sul do Líbano, ou a escala dos bombardeios de ambas as partes continuará, provocando mais desastres e mais destruição. De fato, esse conflito, mais do que resultado da captura de dois soldados israelenses, é fruto do embate de duas estratégias: de um lado, o Hezbollah conseguiu se tornar um símbolo ao fazer ajoelhar Israel e obter vantagens sobre ele, e a sua forte presença na cena é considerada um golpe doloroso no projeto sionista; do outro lado, Israel no momento enfrenta muitos problemas sociais, econômicos, políticos, de segurança e até militar. E não quer aceitar a presença espiritual do Hezbollah, em todas as circunstâncias, lutando contra sua forte existência. Por esse motivo se observa que o governo israelense considera o conflito uma luta por sua sobrevivência, não mais pelo alargamento das fronteiras, mas sim por sua existência. É por isso que se vê que, loucamente, na defesa da sua reputação e credibilidade já perdidas, Israel atacou a Faixa de Gaza, derramando sangue e causando destruição, mais tarde efetuando uma ação desproporcionada contra o Líbano.

A guerra chegou a um ponto em que Israel, para expressar sua atitude e seus objetivos, precisa de operações terrestres. Mas, pelo que observamos nesses dias, podemos tirar a conclusão de que o custo disso seria muito elevado para Israel. Obviamente esse regime não tem capacidade de agüentar e manejar uma guerra prolongada. Porém, os Estados Unidos oferecem seu apoio oficial e explícito, criando a oportunidade para Israel. Desta forma, o conflito passou a ser uma guerra dos Estados Unidos, mas que não podem sobrepor-se às fórmulas dominantes nos conflitos no Oriente Médio. Nesse quadro, com o desgaste do conflito prolongado, Israel certamente vai perder. E a resistência da outra parte, nos momentos iniciais do conflito, já evidenciava a parte vitoriosa.

SEYED JAFAR HASHEMI é embaixador do Irã no Brasil.