Título: Cartão amarelo para Israel¿
Autor: Ricardo Galhardo
Fonte: O Globo, 31/07/2006, O Mundo, p. 17

HAIFA. Para o general de reserva Amos Malka, ex-chefe do departamento de Inteligência do Exército de Israel, houve um erro no ataque a Qana que, além de provocar perdas civis, terá no campo diplomático um alto preço para o governo Olmert.

Uma falha de grande porte como a que resultou em dezenas de civis mortos pode alterar a estratégia de ataques contra o Hezbollah?

AMOS MALKA: Não sei se foi um erro político, de inteligência ou um acidente. O fato é que houve um erro grave que precisa ser investigado, pois no auge das negociações para um cessar-fogo o episódio provocou um abalo diplomático terrível. Como o Hezbollah usa a população civil como escudo, pouca coisa deve mudar na administração da guerra. É de lugares repletos de civis que saem foguetes com poder de alcançar grandes cidades israelenses e a missão do Exército é destruir estes pontos.

Quais as chances de um cessar-fogo duradouro?

MALKA: Quero lembrar que esta não é uma guerra por causa do seqüestro dos dois soldados, mas por causa da soberania do Hezbollah no sul do Líbano. Caso haja um entendimento para a entrada de uma força internacional e o Exército libanês assuma seu papel na fronteira, existem possibilidades. É natural que o mundo árabe saia em defesa do Líbano diante das fortes imagens transmitidas na TV. Israel levou um cartão amarelo e está consciente de que o nível de tolerância da comunidade internacional está baixando.

O senhor acredita que as falhas e o lento progresso das tropas possam ser atribuídos à falta de experiência militar do premier Olmert e do ministro Peretz?

MALKA: De maneira alguma. O fato de que Olmert e Peretz não sejam representantes da velha guarda de generais que entraram na política não tem influência sobre a administração de uma guerra. Não é preciso ser ex-militar para ocupar estes cargos e os EUA são o melhor exemplo disso.