Título: MULTIDÃO FURIOSA ATACA PRÉDIO DA ONU EM BEIRUTE
Autor: Ricardo Galhardo
Fonte: O Globo, 31/07/2006, O Mundo, p. 17

Protesto contra matança que levou 5 mil às ruas culmina com depredação de escritórios da organização na capital

BEIRUTE. Embora conviva há semanas com bombardeios diários e uma situação de guerra deflagrada, a população libanesa se comoveu e indignou-se de maneira inédita ontem com o ataque israelense que matou dezenas de crianças na cidade de Qana, sul do país. O massacre levou libaneses a protagonizarem o maior protesto em 18 dias de conflito. Em todos os cantos da cidade era possível ver pessoas chorando na frente de aparelhos de TV, diante das imagens de corpos sendo retirados dos escombros em Qana.

Aos gritos de ¿Morte a Israel! Morte à América!¿, cerca de cinco mil libaneses foram às ruas de Beirute protestar. As manifestações se concentraram na porta do prédio que abriga escritórios da ONU, no centro da capital. Alguns manifestantes, furiosos, apedrejaram, invadiram e depredaram a entrada do prédio. Por medidas de segurança, os funcionários da ONU foram retirados do local e levados para um hotel nas proximidades.

Os manifestantes, carregando bandeiras do Líbano e do grupo xiita Hezbollah, queimaram bandeiras dos EUA e gritaram palavras de ordem contra o presidente dos EUA, George W. Bush, e a secretária de Estado, Condoleezza Rice. Soldados do Exército libanês acompanharam o protesto sem interferir.

¿ Que a senhora Rice não se atreva a voltar aqui para beber o sangue das nossas crianças! ¿ gritava Kalil Jarrah, 42 anos, trabalhador da construção civil.

Refugiados deixaram abrigos para protestar

Nas primeiras horas da manhã, assim que a notícia do massacre se espalhou, refugiados vindos do sul do Líbano ¿ principal foco dos ataques ¿ começaram a deixar escolas e praças onde estão abrigados para se dirigir ao prédio da ONU. O local parece ter sido escolhido como forma de pressionar a comunidade internacional a obter um cessar-fogo. A maior parte dos manifestantes era de muçulmanos xiitas simpáticos ao Hezbollah, mas cristãos, sunitas, drusos e armênios também participaram da manifestação.

¿ Agora não se trata mais de uma guerra do Hezbollah contra Israel. Protestaria contra uma covardia dessas mesmo que as vítimas fossem judeus. Bombardear crianças dormindo não é guerra, é crime, é genocídio ¿ disse o estudante cristão Danyr Haddad, 23 anos.

No auge do protesto, um grupo começou a atirar pedras contra a fachada do prédio, quebrando portas de vidro. Em seguida, cerca de 50 pessoas invadiram o local, quebrando o que vissem pela frente. Três horas depois o protesto arrefeceu e a multidão se dispersou. Num momento de grande tensão, centenas de pessoas cercaram o carro do chefe de polícia, Ashraf Rifi, que fora ao local tentar garantir a segurança do prédio da ONU. A multidão tentou virar o veículo, mas ninguém ficou ferido. O Exército libanês enviou tanques para garantir a segurança das embaixadas dos EUA e de Israel em Beirute.

O massacre parecia ser o único assunto na cidade. Nos bares, restaurantes e lanchonetes, as pessoas não desgrudavam os olhos da TV, que repetia as imagens do massacre. As emissoras al-Arabyia e LBC transmitiam ao vivo os trabalhos de resgate entre os escombros. Quando surgiu a imagem dos cadáveres de uma mãe e sua filha, as duas abraçadas, um grupo de homens que tomavam café na rua Hamra, no centro, se revoltou:

¿ Mostre isso para o povo do Brasil. Mostre como age o exército profissional de Israel! ¿ disse aos prantos o comerciante Kasseim Omeiri, de 56 anos.

A TV exibiu um comunicado no qual o Hezbollah ameaçava ¿responder o ataque à altura¿. Surgiram, então, demonstrações explícitas de impaciência em relação ao grupo radical.

¿ O Hezbollah se aproveita disso. Eles poderiam ter tirado todo mundo de lá mas incentivam a permanência para transformar essas pessoas em escudos ¿ disse um homem que preferiu não se identificar.

À noite, centenas de pessoas se reuniram na Praça dos Mártires, também no centro, para prestar uma homenagem às vítimas do massacre. Carregando velas e cartazes pedindo o fim da guerra, os manifestantes cantavam e rezavam.

Protestos contra a ação israelense em Qana eclodiram em Gaza também sob a forma de ataques à ONU. Uma multidão de palestinos enfurecidos com a notícia da matança em Qana invadiu um prédio da organização na Cidade de Gaza, destruindo móveis e carros da organização. No Cairo, milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra o bombardeio a Qana, gritando palavras de ordem contra Israel e os Estados Unidos. Em Paris, centenas de pessoas, entre libaneses e franceses, protestavam contra os bombardeios israelenses e pediam um cessar-fogo imediato na região.