Título: POSIÇÃO DOS EUA DIFICULTA FIM DE ATAQUES
Autor: Helena Celestino
Fonte: O Globo, 01/08/2006, O Mundo, p. 28

Condoleezza se irrita com Israel por morte de dezenas de civis em Qana

WASHINGTON. Apesar de crescentes pressões de vários países da Europa, e inclusive do mundo árabe, aliados dos EUA, a perspectiva de um cessar-fogo imediato no Oriente Médio parecia remota ontem à noite. Até mesmo a possibilidade de isso vir a acontecer em curto ou médio prazo era afastada devido à insistência do governo americano em condicionar essa trégua à ¿uma duradoura solução política¿ ¿ como repetiu o presidente George W. Bush numa rápida visita a Miami.

¿ Parar (as hostilidades) só pelo fato de parar pode ser OK, só que isso não vai enfrentar as causas que são a raiz do problema ¿ justificou ele, acrescentando que sentia muito a morte de inocentes civis.

Secretária de Estado interpela ministro de Israel

A secretária de Estado, Condoleezza Rice, ficou muito irritada com o governo de Israel por não ter sido informada do ataque que matou 37 crianças. Ela tomou café da manhã com o ministro da Defesa, Amir Peretz, e com a chanceler Tzipi Livni, em Jerusalém, horas depois do ataque. Mas ambos não mencionaram o fato. Só soube por meio de um e-mail enviado pela Embaixada dos EUA em Beirute.

Segundo um assessor ¿ela ficou nauseada¿ com a notícia, e procurou Peretz, a quem interpelou em tom duro: ¿O que é isso?¿ ¿ disse. O primeiro-ministro respondeu que Israel estava averiguando o que acontecera.

Apesar de dúvidas generalizadas a respeito, Condoleezza disse que acreditava ser possível a aprovação de uma resolução ambiciosa ainda esta semana na ONU. Perguntada sobre o fato de Israel ter rompido a promessa que lhe fizera de suspender por 48 horas os bombardeios aéreos do sul do Líbano, ela deu a entender que a sua confiança não tinha sido traída:

¿ Os israelenses nos explicaram que estão apenas dando apoio aéreo às suas forças no solo. Nós insistimos para que deixassem uma passagem livre para a assistência humanitária.

Mas o próprio primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, antecipou à noite que só aceitará um cessar-fogo se o Hezbollah devolver os dois soldados que seqüestrou, ¿e também depois que a ameaça dos ataques de seus foguetes for removida¿.

Bush foi muito criticado por não buscar primeiro o fim das atrocidades. Analistas e inclusive parlamentares disseram que ele calculou mal os seus passos nesse conflito ao insistir numa política que o próprio governo define como ¿drenar o pântano¿. Ou seja: enquadrar a questão como parte da guerra ao terrorismo internacional.

Robert Malley, diretor do programa do Oriente Médio no Grupo de Crise Internacional, centro de estudos em Washington, disse que é impossível condicionar um cessar-fogo a questões que o Hezbollah não aceite:

¿ Nada funcionará a menos que o Hezbollah concorde com a proposta. E não se pode esperar que o Hezbollah faça algo que signifique o suicídio para esse grupo.

Cheque em branco para Israel é um erro, diz analista

Michael O¿Hanlon, analista de política externa da Brookings Institution, acha que os EUA se equivocaram ao fechar os olhos às ações militares israelenses:

¿ Cometemos um erro enorme ao darmos um cheque em branco a Israel.

Shibley Telhami, professor da Universidade de Maryland, acrescentou:

¿ Os EUA estão transformando o Hezbollah num ícone que ofusca até mesmo a al-Qaeda.

Augustus Richard Norton, especialista em política xiita libanesa, com longa experiência em forças de paz da ONU, arrematou:

¿ Os EUA estão alienando ainda mais a opinião mundial, e inclusive a de seus aliados, em nome de uma estratégia que tem tudo para falhar.