Título: LÍBANO ENFRENTA SEU MAIOR DESASTRE AMBIENTAL
Autor: Ricardo Galhardo
Fonte: O Globo, 03/08/2006, O Mundo, p. 34
Derramamento de até 25 mil toneladas de óleo por causa de ataques de Israel polui um terço do litoral do país
BEIRUTE. Como se não bastassem os danos humanos, econômicos e de infra-estrutura, o conflito com Israel provocou aquele que pode ser o maior desastre ambiental da história do Líbano. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, dez mil toneladas de óleo vazaram no Mar Mediterrâneo de cinco tanques que abasteciam a usina termoelétrica de Jiyeh, ao sul de Beirute, bombardeada por Israel.
Ambientalistas dizem que o volume pode chegar a 25 mil toneladas. O vazamento já poluiu praias em pelo menos dez localidades do litoral libanês colocando em risco a saúde da população, espécies marinhas e patrimônios históricos. É o pior acidente deste tipo no Mediterrâneo desde 1991.
¿ Este era o nosso patrimônio. Algo que poderia ajudar a conseguir recursos para nos reerguermos. Agora, levará anos para que tudo volte ao normal ¿ lamentou Nabil Rifai, que trabalha em uma lanchonete na praia de Ramlat el-Baida.
Ruínas arqueológicas estão ameaçadas pelo óleo
A praia, um dos principais destinos turísticos da cidade, foi a primeira a ser atingida pela mancha negra devido à proximidade da usina de Jiyeh. Os estragos também chegaram a Jounieh, Tabarja, Batroun, Chekka, Enfeh, Trípoli, el-Abdeh e Biblos. Em quase todas estas localidades existem importantes ruínas arqueológicas dos povos que habitaram a região como romanos, fenícios, árabes, babilônios, bizantinos e cruzados europeus, consideradas patrimônio da Humanidade. Muitas delas, como o cemitério fenício de Biblos, ficam na beira do mar e estão expostas à contaminação. A poluição já chegou até a costa da Síria, atingindo um terço do litoral libanês.
Além disso, a mancha negra coloca em risco a reprodução da tartaruga verde marinha, espécie em extinção, que usa as praias libanesas para botar seus ovos; e a pesca do atum, atividade econômica importante em vários povoados do litoral.
O Ministério do Meio Ambiente está tentando conter o vazamento e sanar os danos. O custo estimado da operação é de US$50 milhões. Equipes trabalham em toda a costa com ajuda de organizações internacionais de defesa do meio ambiente. Segundo o governo, os bombardeios também prejudicam as ações das equipes de limpeza. O Ministério do Meio Ambiente disse ter pedido ajuda ao Kuwait, grande produtor de petróleo.
¿ É preciso tomar cuidado porque alguns produtos de limpeza são tóxicos e podem causar um estrago maior que o do vazamento ¿ disse o biólogo Hassein Fawaz.
Entre os dias 13 e 15 de julho, no início do conflito, caças israelenses bombardearam os depósitos de Jiyeh com o objetivo de danificar a rede de infra-estrutura de Beirute. Quatro dos seis tanques explodiram. O fogo fez com que um quinto tanque também explodisse na última quinta-feira e agora as autoridades temem pelo sexto tanque.
Além disso, um navio de guerra israelense usado no bloqueio ao porto de Beirute foi bombardeado pelo Hezbollah e pode ter derramado mais óleo no Mediterrâneo.
Os bombardeios também ameaçam a Reserva de Cedro al-Shouf, a maior área de proteção da biosfera do país. Bombas teriam atingido a área.