Título: Inflação baixa, juros mais altos
Autor: Ronaldo D'Ercole
Fonte: O Globo, 04/08/2006, Economia, p. 25
Apesar do recuo da Selic, taxa real de bancos para consumidor e empresas sobe no ano
Oefeito dos cortes na taxa básica de juros da economia, a Selic, iniciados há um ano, ainda não chegou ao bolso dos brasileiro. Estudo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac) mostra que, quando se toma os juros médios das operações de crédito a pessoas físicas apurados mensalmente pelo Banco Central entre janeiro e junho deste ano e se desconta a inflação medida pelo IPCA no período, a taxa real de juros acumulada na primeira metade de 2006 foi de 23,77%, acima dos 23,32% do mesmo período do ano passado.
Essa diferença é ainda maior quando se compara o juro real geral (média das taxas dos empréstimos a pessoas físicas e empresas), que no primeiro semestre de 2005 foi de 17,53%, contra 18,61% acumulados este ano.
¿ É incrível, mas a taxa de juro real continua subindo, apesar das quedas da Selic e dos cortes nas taxas nominais dos bancos ¿ diz o vice-presidente da Anefac, Miguel José Ribeiro de Oliveira.
A taxa de juro média nominal dos empréstimos a pessoas físicas caiu de 62,1%, em setembro de 2005, para 55,8% ao ano em junho último. Ou seja, 10,1%. No mesmo período, a Selic recuou 4,5 pontos percentuais, caindo de 19,25% para 14,75% ao ano ¿ um recuo de 23,4%.
O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, confirma a constatação da Anefac. E tem uma explicação: a inflação no país está caindo num ritmo mais acelerado do que os cortes nos juros das instituições financeiras, o que faz crescer as taxas reais em relação às do ano passado.
Varejistas ganham mais com taxas altas
Bancos e financeiras atribuem a relutância em reduzir mais drasticamente os juros de seus financiamentos aos níveis elevados de inadimplência no país. Por isso, também pouco alteram as taxas de risco que embutem nos empréstimos, os chamados spreads (a diferença entre o custo dos bancos para captar recursos e os juros cobrados dos tomadores de crédito). Entre setembro de 2005 e junho deste ano, o spread médio do mercado brasileiro de crédito caiu de 44,1%, para 40,6% ao ano, segundo dados do BC.
Com os recentes aumentos na renda dos consumidores e a melhora no emprego no país, seria razoável supor que a taxa de risco embutida nos juros dos empréstimos diminuísse de forma mais expressiva.
Mas isso não acontece. Segundo o assessor econômico da Serasa, Carlos Henrique de Almeida, os efeitos desses ganhos evoluem num ritmo mais lento do que o da expansão das carteiras de crédito das instituições, que hoje é o segmento de negócios que traz os maiores retornos aos bancos. Para o diretor-executivo da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP), Antônio Carlos Borges, muitas redes varejistas hoje ganham mais com a intermediação financeira do que com a comercialização de produtos.
¿ Há um claro descompasso entre os fatores que poderiam impactar positivamente o custo do crédito, como a alta da renda e a melhoria dos níveis de emprego, e os negativos, como a inadimplência ¿ diz Almeida.
O economista da Serasa observa ainda que a inadimplência maior não afetou a rentabilidade dos bancos, o que prova que a manutenção dos juros altos é uma forma eficiente de cobrir os riscos. O Itaú, que divulgou seu balanço esta semana, registrou rentabilidade de 35,7% no primeiro semestre deste ano, embora tenha aumentado em 73% suas provisões contra créditos duvidosos, para R$5,6 bilhões.
¿ Manter os juros altos é uma forma cômoda de se defender contra riscos, mas o financiamento mais caro tende a se transformar em risco lá na frente ¿ adverte ele.
Febraban culpa `tributação burra¿
Pressionados a acelerar o repasse do corte da Selic aos juros para o consumidor, inclusive pelo governo, os bancos alegam uma série de fatores, além da inadimplência, para manterem taxas elevadas. Um deles é a pesada carga de impostos que incide sobre as operações financeiras.
Segundo o economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Roberto Luis Troster, quase um terço dos juros pagos nos financiamentos refere-se a tributos, como IOF, PIS, Cofins e IR. Pesa ainda na conta dos juros o recolhimento compulsório ao BC, hoje de 45%, que os bancos fazem sobre depósitos à vista.
¿ Além do compulsório elevado e da tributação burra, os bancos são obrigados a fazer uma série de empréstimos direcionados, como o crédito rural, a juros subsidiados. Por isso, o tomador de crédito paga caro ¿ diz Troster.
INFLAÇÃO PELA FIPE SUBIU PARA 0,21% EM JULHO, MAS ÍNDICE ANUAL É DE SÓ 1,77%, na página 26