Título: CRIME ATACA SP DE NOVO
Autor: Flávio Freire
Fonte: O Globo, 08/08/2006, O País, p. 3

Ação, que deixou dois mortos, pode ser retaliação a veto ao indulto do Dia dos Pais

Setenta e duas horas depois de o Ministério Público tomar medidas contrárias ao crime organizado responsabilizando um de seus chefes pela morte de um bombeiro em maio, a facção criminosa que age em São Paulo retomou ontem os ataques em série que desde maio vêm amedrontando a população do estado. Numa possível retaliação ao veto do MP sobre o indulto do Dia dos Pais ¿ o que pode impedir que os presos passem a data em casa, no próximo dia 13 ¿ os criminosos realizaram 93 ataques na capital e em dez cidades do interior e litoral entre a madrugada e o início da manhã. Em Santo André, dois rapazes foram mortos no confronto com a polícia depois de atirar contra o Fórum da Barra Funda. Doze pessoas foram detidas e cinco ficaram feridas.

A sede do Ministério Público, no Centro da capital, foi atingida por uma bomba artesanal que destruiu parte da portaria e derrubou vidraças de bares e lojas vizinhas ao prédio.

Ao todo, 11 artefatos explosivos foram lançados durante todo o dia contra órgãos públicos e alvos civis. Os criminosos também voltaram a queimar ônibus e a atacar agências bancárias e bases da polícia. Desta vez, detonaram bombas em supermercados e atearam fogo em 12 postos de gasolina. Na ação, 28 ônibus foram atacados ¿ três no final da noite de ontem ¿ e 34 postos bancários foram destruídos, segundo levantamento da polícia. À tarde, a Secretaria de Segurança Pública divulgou balanço preliminar que contabilizava apenas 27 ataques em todo o estado, com cinco ônibus queimados.

Ainda nas primeiras horas da manhã, uma granada foi lançada contra a sede do Poupatempo, órgão público que atende diariamente dez mil pessoas para obter documentos na Praça da Estação da Luz. A granada foi desativada por Policiais do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate).

Cinco carros da polícia que estavam no pátio do Departamento de Investigações Contra o Crime (Deic) foram queimados. Alguns suspeitos de participar da organização foram levados para o Deic depois de presos durante os ataques de maio e julho.

Também foram atacadas duas revendedoras de veículos. Um vagão do Metrô que se dirigia à manutenção foi alvejado por tiros. A ação do crime organizado se estendeu aos órgãos públicos. De dentro de um carro, homens dispararam vários tiros contra o prédio da Secretaria da Fazenda de São Paulo, no fim da madrugada.

Bomba explode em supermercado

Os ataques não se restringiram a bairros da periferia, como na maioria das vezes anteriores. Entre os 12 postos de gasolina atingidos, dois deles ficam em Higienópolis, bairro nobre da capital. Um caminhão-tanque foi atacado, mas não explodiu. Os donos de postos de gasolina cogitam fechá-los às 22h (funcionam 24 horas por dia).

Três pessoas que esperavam para tirar dinheiro em caixas eletrônicos dentro do supermercado Extra, no bairro de Interlagos, ficaram feridas depois que um rapaz, na garupa de uma moto, deixou uma sacola perto do caixa e saiu gritando ¿tudo vai cair¿. A explosão atingiu quatro equipamentos, destruiu parte do teto e derrubou paredes de vidro.

As três pessoas atingidas por estilhaços de vidros e parafusos passam bem, segundo a direção do supermercado. Uma das vítimas, um jovem de 25 anos, havia acabado de receber alta do hospital, onde passou por uma cirurgia para colocar pinos de platina na perna.

Assim como ocorreu em maio e julho deste ano, os ataques se estenderam ao interior do estado. Em Sumaré, região de Campinas, um carro foi atirado contra o prédio do 3º Distrito Policial. Na região de Santos, três unidades policiais foram atingidas por tiros. Em Nova Odessa, uma base da guarda Municipal foi atingida por quatro tiros. Já em Americana, os criminosos dispararam dez vezes contra a base da Guarda Municipal. Um homem passara em frente à base fazendo ameaças e foi detido. Enquanto o suspeito estava no distrito, ocorreu o atentado.

O governo de São Paulo tinha informações de que a facção criminosa poderia retomar os ataques ontem, mas não tinha detalhes da ação. Perguntado se as polícias Militar ou Civil sabiam que os ataques seriam feitos ontem, em vez de dia 13, Dia dos Pais, o secretário da Segurança Pública, Saulo de Castro Abreu Filho, admitiu que sim, mas não deu detalhes. A motivação da antecipação dos ataques, anunciados para o Dia dos Pais, ainda não está clara para o governo.

¿ Potencialmente, sim (sabia que os ataques ocorreriam ontem). Esse pessoal da facção não está lá por idolatria. Obedecem ou morrem. Já foram 500 presos e tantos outros (mais de cem) mortos. Sofreram muitas baixas. Querem é criar histeria ¿ disse Saulo de Castro, afirmando que a situação está superdimensionada.

Segundo o secretário, a facção não tem o poder que tenta demonstrar:

¿ Atacaram o Ministério Público, mas por que não o prédio da Secretaria da Segurança, que fica na mesma região? Porque não conseguem.

Castro fez um balanço dos outros ataques e chamou de ¿lusitana¿ a ação da facção ontem.

¿ Temos 500 presos e mais de cem deles mortos. O que nós vamos fazer? Agora temos mais dois mortos.

O governador Lembo defendeu a forma como o secretário tem conduzido a segurança no estado. Segundo ele, o problema é que embora a polícia tenha prendido cerca de 500 envolvidos nas duas outras ondas de ataques (em maio e julho) e matado mais de cem pessoas, há ainda uma ¿reserva de bandidagem¿ no estado.

¿ Num estado com 40 milhões de habitantes, sempre tem uma reserva de bandidagem e aquela reserva se recoloca naquela que caiu ¿ disse o governador Lembo.

(*) Colaboraram Adauri Antunes Barbosa, Soraya Aggege e Tatiana Farah